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quarta-feira, 25 de março de 2026

MOMENTO BARATA-VOA EM BRASÍLIA

SI HAY GOBIERNO, YO SOY CONTRA.

Eu tinha um conhecido que tinha um irmão que tinha uma loja que vendia guarda-chuvas. Sempre que chovia, o irmão do meu conhecido festejava: que dia lindo!!!


Por mais estranho que pareça, todo fato tem ao menos três versões (a sua, a minha e a verdadeira) e existem várias maneiras de ver as mesmas coisas. 


Se você aprecia frutas e legumes fresquinhos (ou gosta de comer pastel tomando caldo de cana), dia de feira é tudo de bom, mas se mora na rua em que os feirantes amam as barracas antes do nascer do sol, a feira é uma aporrinhação. 


A capacidade de compreender sentimentos, emoções e perspectivas dos outros colocando-se no lugar deles — ou "calçando seus sapatos" como dizem os gringos (to be em someone's shoes) — se chama empatia. Só que a maioria das pessoas vê as pingas que as outras tomam, mas não os tombos que elas levam. Enfim, cada um sabe onde lhe aperta o sapato, e quem tem calos sabe que não convém se meter em aglomerações.


Somos todos egoístas por definição. Aristóteles dizia que “o homem é um animal social porque precisa dos outros membros da espécie”. Se nossos antepassados passaram a viver em bandos para se sentirem mais seguros, mas viver em sociedade exige sobrepor os interesses coletivos aos individuais e limitar a liberdade de cada um para evitar interferências na liberdade da sociedade como um todo.


Mesmo quem aprecia a solidão não gosta de se sentir só. Mas somos incapazes de viver sós e, paradoxalmente, de viver em sociedade, pois o convívio social pressupõe a observância de regras limitadoras do nosso ser ou não-ser — como diria Drummond, é preciso instinto de formiga, dentes de leão e habilidade camaleônica.


A convivência em um meio comum implica a busca de interesses que atendam de forma equilibrada às necessidades coletivas, mas isso gera atritos entre os diversos interesses individuais presentes, que muitas vezes se revelam antagônicos e colidentes. Para pôr ordem nesse galinheiro, existem as leis — também chamadas de normas jurídicas.


Como a prostituição e os políticos, as leis são um mal necessário. Sem a imposição de limites, liberdade se confunde com libertinagem. Por outro lado, não cabe ao legislador — representante legitimado pelo voto para exercer a função de guardião da soberana vontade popular — permitir expressamente o que quer que seja, e sim proibir aquilo que conflita com os interesses da sociedade. 


Reza um velho ditado latino que "nullum crimen, nulla poena sine praevia lege" (não há crime nem pena se não houver uma lei anterior que os defina). Em outras palavras, alguém só pode ser punido se sua ação (ou omissão) constituir fato delituoso previamente tipificado pela legislação vigente.


Para entender melhor, vamos supor que Joãozinho costume peidar na igreja, e que um belo dia essa prática passa a ser tipificada — ou seja, ser vista como contravenção ou crime. A partir de então, Joãozinho estará transgredindo a lei sempre que peidar na igreja, mas não poderá ser punido pelos peidos pretéritos, já que a lei é posterior ao fato. 


A questão é que vivemos num país em que até o passado é incerto, e o eleitorado tende a repetir a cada dois anos, por ignorância e despreparo, o que Pandora fez, uma única vez, por curiosidade, ao abrir sua famosa caixa e libertar todos os males do mundo.


Os brasileiros são vocacionados a votar em candidatos que se elegem para roubar, roubam para se reeleger e, entre uma coisa e outra, cobrem com o manto parlamentar os andrajos de maus políticos e criam leis destinadas a favorecer a si próprios, a seus pares e a criminosos que podem bancar os honorários milionários de chicaneiros especializados em empurrar a decisão final dos processos ad kalendas græcas — ou até que a pretensão punitiva do Estado seja frustrada pela prescrição.


Costuma-se dizer que “se está na lei, deve ser cumprido”, mas isso não pode significar uma obediência cega, irracional e carente de qualquer senso crítico ao que está sendo imposto como forma de comportamento. É imperativo conhecer os limites de atuação do poder que obriga o cumprimento da lei e as formas de regulamentá-lo. 


Ao abrirmos mão de nossa plena e irrestrita liberdade em prol do convívio harmonioso em sociedade, aceitamos tacitamente determinadas limitações, mas desde que essas limitações atendam aos anseios dos conviventes/aderentes, satisfazendo, assim, suas pretensões. Não obstante, o que temos visto de um tempo a esta parte é: 1) um apego desenfreado à letra fria da lei; 2) o exercício da hermenêutica criativa para adequar o alcance do dispositivo legal a um caso específico, de acordo com a simpatia pessoal do julgador pelo réu ou por suas convicções político-ideológico-partidárias.


Em vez de submeter a sociedade a leis arcaicas e divorciadas da realidade, dever-se-ia revogar esses dispositivos ou, no mínimo, adequá-los aos anseios e necessidades dos cidadãos de bem. Se uma lei já não serve, muda-se a lei; se um político se elege calcado em promessas de campanha e acaba por não cumpri-las, ele deve ser prontamente substituído. A Constituição oferece remédios para mitigar esses males, mas é preciso aplicá-los em tempo hábil, sob pena de o paciente morrer antes do tratamento.


Se a delação de Daniel Vorcaro não poupar ninguém, e se não prosperarem os esforços do submundo brasiliense pára abafar as investigações, os porões do escândalo do Banco Master deve provocar um momento barata-voa na Praça dos Três Poderes e adjacências. Não será a primeira vez, e pode não ser a última.


Continua…

terça-feira, 12 de agosto de 2025

DO ESCAMBO AO DINHEIRO DE PLÁSTICO

DE NADA ADIANTA ECONOMIZAR NO QUE BARATO E ESBANJAR NO QUE É CARO.
 

As primeiras transações comerciais foram baseadas inicialmente no "escambo"— sistema em que bens e serviços eram trocados diretamente, sem uma moeda intermediária. Por volta de 3.000 a.C., conchas e metais preciosos passaram a ser usados como moeda de troca. 


As primeiras moedas sugiram por volta de 600 a.C. na Turquia. Mais ou menos na mesma época, os chineses criaram as cédulas de papel. O cheque se popularizou no século XX, mas perderam espaço para os cartões de crédito e de débito. A ideia do cartão de crédito surgiu nos anos 1920, mas a primeira versão aceita pelo comércio em geral foi criada trinta anos depois: ao perceber que havia esquecido a carteira quando saiu para jantar com amigos em Nova York, Frank McNamara apresentou seu cartão de visita, assinou a nota e prometeu pagar despesa no dia seguinte. E assim nasceu o Diners Club Card


A partir da década de 1980, os cartões de débito começaram a se popularizar, ganhando força com a evolução da tecnologia e a criação de redes de aceitação de pagamentos. O DOC e o TED foram criados em 1985 e 2002, respectivamente, e se tornaram padrão para transferências eletrônicas no Brasil, mas foram superados pelo Pix, lançado em 2020, que trouxe mais agilidade e praticidade.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Como dizia o poeta, "não há nada como o tempo para passar". Em 2017, quando surfava como pré-candidato na onda antipetista e anticorrupção que o levaria ao Planalto no ano seguinte — Bolsonaro defendia a prisão em segunda instância e dizia que o fim do foro privilegiado seria "um engodo", uma maneira de retardar por décadas o trânsito em julgado e a subsequente prisão do condenado.

Hoje, a banda podre do Congresso rala para incluir rapidamente na pauta da Câmara uma proposta que transfere o foro dos poderosos do topo para o térreo do Judiciário — beneficiando Bolsonaro e todos os congressistas enrolados no escândalo das emendas.

A chance de a manobra beneficiar o "mito" — cujo julgamento está marcado para o mês que vem — é diminuta, mas a simples movimentação potencializa a impressão de que, em política, a coerência varia ao sabor da direção do vento: quem ontem achava que os transgressores não deveriam ser perdoados antes do enforcamento ora avalia que o melhor é providenciar uma anistia antes da condenação — ou adiar o patíbulo de todas as transgressões até a prescrição da corda.


Sou da época em que as contas eram pagas com dinheiro ou cheque — de acordo com o valor, pois mesmo naqueles tempos não era seguro andar com grandes quantias em espécie. Em armazéns, botecos e afins, o fiado reinava como modalidade informal de crédito — os gastos eram anotados pelos comerciantes nas famosas "cadernetas", inflacionados pelos inevitáveis "erros de soma" e pagos mensalmente pelos fregueses.


O Banco Itaú instalou o primeiro caixa automático no Brasil em 1983. As operações eram feitas mediante a inserção de um cartão plástico na máquina, onde uma leitora interpretava as informações armazenadas numa tarja magnética composta por 3 linhas formadas por minúsculas barras magnetizadas, codificadas em binário. Essa tecnologia também foi usada nos cartões de crédito, substituindo a antiga impressão mecânica dos dados em formulários carbonados.

 

As tarjas magnéticas foram desenvolvidas com base no sistema usado para gravar áudio em fitas cassete, mas acabaram dando lugar ao microchip — que cria códigos únicos para legitimar cada transação, proporcionando maior segurança nas operações eletrônicas. A tecnologia surgiu nos anos 1960, mas demorou décadas para ser amplamente adotada porque os chips não eram padronizados e os terminais não identificavam todos os modelos. 

 

Pagar com "dinheiro de plástico" é fácil — basta inserir o cartão na maquininha e digitar a senha — e razoavelmente seguro, seja no boteco da esquina, no supermercado, ou mesmo em compras no exterior. Nas transações online, no entanto, o CVV (código de 3 algarismos que vem impresso no verso do cartão) substitui a senha usada nas compras presenciais. Isso significa que qualquer pessoa que obtiver acesso aos dados do dono do cartão (nome, número, validade e CVV) poderá fazer compras em seu nome em lojas virtuais.

 

Observação: Mesmo que as informações do cartão sejam salvas nos servidores da loja, será preciso informar o CVV para validar as próximas compras.

 

Continua..

sábado, 9 de agosto de 2025

SENHAS FRACAS NUNCA MAIS

O SEGREDO É A ALMA DO NEGÓCIO.


As senhas são mais antigas do que costumamos imaginar: o Velho Testamento registra que o termo "xibolete" (do hebraico שבולת, que significa "espiga") era usado para identificar um determinado grupo de indivíduos. 


No âmbito da TI, a prática se popularizou depois que o MIT criou o Compatible Time-Sharing System (CTSS) e a Arpanet adotou o login com nome de usuário e senha de acesso. Nos primórdios do correio eletrônico, uma combinação de quatro algarismos bastava, mas o e-commerce e o netbanking potencializaram a necessidade de uma autenticação segura. 

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O bolsonarismo deseja tirar o "mito" do Supremo, já que a volta do processo à estaca zero da primeira instância abre não um portão, mas um portal para uma infinidade de recursos que conduzem os crimes à prescrição — outro nome para impunidade. Já o Centrão, atolando na estrumeira dos inquéritos sobre malversação de verbas federais por meio de emendas parlamentares, pega carona no motim congressual bolsonarista para tirar da suprema grelha a delinquência das emendas e blindar os parlamentares. 

A sublevação foi suspensa na madrugada de quinta-feira, depois que Hugo Motta ameaçou suspender mandatos de deputados que insistissem na obstrução — que foi encerrada após uma negociação que envolveu líderes partidários e a intervenção do ex-presidente da Casa, Arthur Lira.

A eventual aprovação da proposta que acaba com o foro privilegiado para os poderosos pode não chegar a tempo de acudir Bolsonaro, cujo julgamento está previsto para o mês que vem. Ciente dos riscos, o baba-ovos do mico exigem que o acordo inclua também a votação da anistia — nesse ponto, o Centrão topou apenas debater a matéria, sem compromisso com a aprovação. 

Em 2017, quando o STF estava prestes a limitar a abrangência do foro privilegiado, o Senado aprovou uma proposta que o então senador Romero Jucá resumiu em três frases: "Se acabar o foro privilegiado, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba." A proposta foi aprovada pelos senadores e passou pelas comissões da Câmara, mas estacionou na porta do plenário. 

Naquela época, o Centrão estava enrolado no petrolão, e o mesmo Jucá foi pilhado num grampo em que defendia a costura de um "grande acordo nacional com o Supremo, com tudo". Agora, a ideia é transferir a "suruba" para a primeira instância. Triste Brasil!


Usar senhas óbvias (fracas, mas fáceis de decorar) é como trancar a porta e deixar a chave à vista. Criar senhas complexas (como 2Ar16i5Ko*0#) é fácil; memorizá-las, nem tanto. Recorrer a um gerenciador é como entregar as chaves a um estranho, mas o risco de usar uma única senha forte para tudo é ainda maior. O Chrome possui um gerenciador nativo, que detecta combinações fracas e sugere alternativas. 

Sabendo que a maioria dos usuários ignora essas recomendações — até porque alterar senhas dá trabalho —, o Google desenvolveu uma funcionalidade que, mediante autorização expressa do usuário, troca automaticamente senhas fracas ou que tenham sido envolvidas em vazamentos. O recurso será lançada oficialmente no final do ano, de modo a dar temo aos desenvolvedores para tornar aplicativos e sites compatíveis com ele. 

Lembre-se: Em rio que tem piranha, jacaré nada de costas.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

PARA O BEM OU PARA O MAL...

... NÃO HÁ NADA COMO O TEMPO PARA PASSAR.

Até onde se sabe, tudo que existe no Universo (incluindo o próprio Universo) tem começo, meio e fim. Em última análise, a morte é a única certeza que temos na vida. E começamos a morrer no exato instante em que nascemos.


Lula nasceu no agreste pernambucano, conheceu o pai aos cinco anos, veio para São Paulo num caminhão pau de arara com a mãe e uma penca de irmãos, foi engraxate, vendeu laranjas, amendoim, trabalhou numa tinturaria, diplomou-se torneiro mecânico pelo Senai, foi dirigente sindical, fundou o PT e, após três tentativas inexitosas, elegeu-se presidente da República por dois mandatos. Depois que deixou o Planalto, colecionou duas dúzias de processos criminais, foi condenado duas vezes por corrupção e lavagem de dinheiro, “descondenado” por uma decisão teratológica do STF e, graças ao antibolsonarismo, tornou a ser eleito presidente desta banânia. Agora, aos 79 anos, a despeito de ter prometido pendurar as chuteiras no final do atual mandato e de estar amargando os maiores índices de rejeição de sua trajetória política, o macróbio quer porque quer disputar a reeleição no ano que vem, mesmo .


Carioca de nascimento, Fernando Collor construiu sua carreira política em Alagoas, derrotou Lula na eleição solteira de 1989 e se tornou o primeiro presidente eleito pelo voto popular da “Nova República”. Seu envolvimento no famigerado “Esquema PC” resultou no processo de impeachment que o levou a renunciar horas antes do julgamento. Mas o Senado o condenou mesmo assim, e ele ficou inelegível por oito anos. Mais adiante, já como senador por Alagoas, rapinou os cofres da BR Distribuidora e foi sentenciado a oito anos e dez meses de reclusão. Por ter 75 anos, sofrer de Parkinson, apneia grave e transtorno bipolar, ganhou o direito de cumprir a pena em prisão domiciliar depois de passar menos de uma semana numa "hospedaria especial" em Maceió.


Bolsonaro nasceu no município paulista de Campinas, ingressou na AMAN, formou-se em Educação Física e tornou-se mestre em saltos pela Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro. Em 1986, ganhou projeção nacional ao publicar na revista Veja o artigo “O salário está baixo”, que lhe rendeu 15 dias de prisão administrativa. No ano seguinte, a mesma revista noticiou que ele e o também capitão Fábio Passos da Silva pretendiam “explodir bombas em várias unidades da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras (...) e em vários quartéis”. Uma sindicância autorizada pelo então ministro do Exército concluiu que os insurretos deveriam ser expulsos, mas o STM acolheu a tese da defesa e a expulsão não aconteceu. 


Bolsonaro passou para a reserva, elegeu-se vereador e, na sequência, foi deputado federal por sete mandatos e perambulou por oito partidos antes de se amancebar com o ex-presidiário do mensalão Valdemar Costa Neto. Ao longo de 27 anos como deputado do baixo clero, aprovou míseros dois projetos e recebeu míseros quatro votos quando disputou a presidência da Câmara. Em 2018, foi guindado ao Planalto graças a uma extraordinária conjunção de fatores (que eu detalhei em outras oportunidades). Mas seu projeto de governo nunca foi além de blindar a si e a seus rebentos, evitar o impeachment e se reeleger em 2022. Quando não conseguiu, partiu para o "plano B" golpista que havia urdido com seus cúmplices... e deu com os burros n'água porque não conseguiu o apoio incondicional das FFAA


Hoje, aos 70 anos, inelegível até 2030, réu por tentativa de golpe e alvo de outras investigações, o "mito" dos anencéfalos insiste em dizer que voltará a disputar a Presidência em 2026. Mas tudo indica que ele será julgado e condenado muito antes disso, ainda que confiar na Justiça tupiniquim seja como acreditar em horóscopo.


Resumo da ópera


Lula foi “descondenado” sob o pretexto de uma estranha incompetência territorial da 13ª Vara de Curitiba (tese que o próprio ministro Fachin havia rejeitado anteriormente em pelo menos dez oportunidades), e a prescrição impediu que os processos fossem reiniciados na JF de Brasília. 


Collor foi impichado, condenado em 2023, preso no final do mês passado e mandado para casa (uma mansão de R$ 9 milhões na orla de Maceió) por motivo de saúde, embora tenha dito na audiência de custódia, com um sorriso irônico nos lábios, que não tomava nenhum medicamento de uso contínuo. 


Maluf respondeu a mais de 50 processos e foi condenado diversas vezes. Depois de empurrar a prisão com a barriga por mais de 20 anos, foi trancafiado na Papuda em dezembro de 2017, mandado para casa poucos meses depois (por “razões humanitárias”) e cumpriu prisão domiciliar até maio de 2023, quando então sua pena foi extinta com base no indulto natalino concedido por Bolsonaro. Aos 93 anos, deve estar morrendo de rir dos idiotas que ainda acreditam na Justiça desta banânia.


Quanto a Bolsonaro, fazer qualquer prognóstico à luz do que foi dito até aqui seria arriscado. A aversão do diabo à concorrência explica por que, para algumas pessoas, velhice não significa estar com um pé na cova. A exemplo de Maluf e do ex-presidente José Sarney, também nonagenário (e que já se retirou da vida pública), o "trio assombro" sairá de cena, cada um a seu modo, ainda que não a seu gosto.


Lula escapou de um câncer na laringe e se recuperou de uma hemorragia intracraniana (decorrente de um prosaico tombo no banheiro, enquanto supostamente aparava as unhas dos pés). A saúde de Collor supostamente inspira cuidados que o sistema prisional tupiniquim não tem condições de prover. Bolsonaro foi vítima de um atentado a faca em 2018 e desde então passou por sete cirurgias (nenhuma delas no SUS). Visando a uma eventual prisão domiciliar, o malacafento tem dito que a próxima operação pode ser fatal, mas também diz que disputará o Planalto no ano que vem.


A carreira política de Collor acabou, não importa quantos anos ele permaneça encastelado em sua mansão. Bolsonaro somará mais alguns anos (ou décadas) de inelegibilidade quando — e se — for condenado pelo STF. Quanto a Lula, talvez o inesperado faça uma surpresa. Até o momento, tudo indica que o macróbio não tenciona largar o osso, mas nada indica que eventual reeleição sejam favas contadas. No feriado do Dia do Trabalhador de 2024, discursando para os gatos pingados que apareceram para prestigiá-lo, a autoproclamada alma viva mais honesta do Brasil disse que a atual gestão está sendo ainda melhor que as anteriores. As pesquisas de opinião discordam, mas o ególatra acha que suas mazelas, da volta da corrupção à escalada da inflação, não passam de um "problema de comunicação". 


Como Steve Jobs — versão revista e atualizada do Flautista de Hamelin —, Lula tenta criar um campo de distorção da realidade para iludir o eleitorado. Mas ele está velho, e seu pífaro, desafinado. Temendo um novo fiasco de público e de crítica neste 1º de maio (sobretudo em meio ao escândalo do INSS), escusou-se de participar ao vivo e em cores das festividades sindicais em São Bernardo do Campo (município da Grande São Paulo que é considerado “berço do PT”).


Crer na "justiça divina" talvez mitigasse o sentimento de revolta que acomete os cidadãos que pagam impostos escorchantes e veem seu dinheiro descer pelo ralo da corrupção. Todavia, à luz de como a humanidade vem se comportando ultimamente, a impressão que se tem é a de que o Criador (supondo que exista um Criador) jogou a toalha e deixar o barco correr.


A única certeza que nos resta — além da morte e dos impostos — é a de que, para o bem ou para o mal, não há nada como o tempo para passar.

terça-feira, 6 de maio de 2025

O BRASIL DA CORRUPÇÃO — CONTINUAÇÃO

UM PALHAÇO QUE SE MUDA PARA UM PALÁCIO NÃO SE TORNA REI, MAS O PALÁCIO SE TORNA UM CIRCO.

 

A maior operação anticorrupção da nossa história começou em 2009. O nome Lava-Jato foi escolhido porque a casa de câmbio ValorTur, dos doleiros investigados, ficava no Posto da Torre, no centro de Brasília.


O posto tinha 16 bombas e 85 funcionários, vendia 50 mil litros de combustíveis por dia (e cobrava por uma quantidade maior do que a colocada no carro dos clientes), abrigava lojas de conveniência e alimentação, borracharia, oficina mecânica, lavanderia, mas não um lava-rápido.

 

Na primeira fase ostensiva, deflagrada em 17 de março de 2014, a PF cumpriu 81 mandados de busca e apreensão, 18 de prisão preventiva, 10 de prisão temporária e 19 de condução coercitiva em 17 cidades de 6 estados e no DF. O filme Polícia Federal — A Lei é para todos retrata bem o início da operação; a série O Mecanismo é mais rica em detalhes, mas troca os nomes dos envolvidos (inclusive da própria Polícia Federal, que passa a se chamar Polícia Federativa) e apresenta os fatos de uma forma mais romanceada.

 

No final de 2015, o ministro Teori Zavascki autorizou a abertura de 21 inquéritos contra 50 parlamentares, caciques políticos e afins, dando origem à primeira "Lista de Janot". Mais adiante, outros 180 inquéritos foram abertos. Os acordos de leniência da Odebrecht e de delação premiada de 77 executivos do grupo ficaram conhecidos como a Delação do Fim do Mundo, mas o mundo acabou para o ministro-relator, que morreu num acidente aéreo às vésperas de homologar a megadelação. Cármen Lúcia, então presidente do STF, tomou a tarefa para si, e Edson Fachin — indicado por Dilma para o lugar de Joaquim Barbosa, que havia se aposentado em 2014 — assumiu a relatoria dos processos da Lava-Jato na Corte. 

 

Em 2019, por 6 votos a 5, o STF proibiu a prisão em segunda instância. A decisão foi catastrófica para a Lava-Jato, cuja eficácia dependia de delações premiadas, conduções coercitivas, prisões preventivas e perspectiva concreta de cumprimento da pena. Mas foi sopa no mel para chicaneiros estrelados, que prorrogam indefinidamente o trânsito em julgado das condenações de quem pode bancar seus honorários milionários, e para Lula, que havia colecionado duas dúzias de processo criminais depois de deixar o Planalto.


Em 12 de julho de 2017, Lula foi sentenciado 9 anos e 6 meses de reclusão no processo envolvendo o triplex do Guarujá. Em março do ano seguinte, o TRF-4 aumentou a pena para 12 anos e 1 mês e determinou a prisão do petista, que se entregou em 7 abril de 2018, após produzir um fabuloso espetáculo midiático defronte ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. 


Em 8 de novembro de 2019, menos de 24 depois da decisão teratológica do STF, o então presidiário mais famoso desta banânia deixou sua cela VIP, subiu num palanque improvisado por apoiadores e rasgou o verbo contra a Lava-Jato, a PF, o MPFMoro e o TRF-4. (Durante seus 580 na prisão, sempre que um visitante lhe perguntava se estava bem, a resposta era a mesma: "Só vou ficar bem quando eu foder com o Moro").


Quando foi solto, Lula já havia sido condenado 12 anos e 11 meses no caso do sítio de Atibaia. Mais adiante, o TRF-4 aumentou a pena para 17 anos e 1 mês e o STJ a reduziu para 8 anos e 10 meses. A despeito de os dois processos terem transitado em julgado, Fachin se escorou numa suposta incompetência territorial — que ele próprio havia rejeitado em pelo menos dez ocasiões anteriores — e determinou que as ações fossem reiniciadas do zero na Justiça Federal do DF


O plenário do STF não só avalizou a decisão teratológica de Fachin por 8 votos a 3, como formou maioria de 7 a 4 para pregar no ex-juiz Moro a pecha de parcial. Em virtude da prescrição  perda da pretensão punitiva estatal por decurso do prazo previsto em lei —, os processos não foram reiniciados


Observação: Em abril de 2025, durante uma sessão da 5ª Turma do STJ, foi mencionado que já haviam sido julgados 433 recursos relacionados ao processo do triplex, dos quais 408 eram pedidos de habeas corpus. Em relação ao caso do sítio, no entanto, eu não consegui encontrar o número exato de recursos.


Em 2016, a troca comando resultante do impeachment de Dilma foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba: depois de 13 anos, 4 meses e 12 dias ouvindo garranchos verbais de um semianalfabeto e frases desconexas de uma destrambelhada que não conseguia juntar sujeito e predicado numa frase que fizesse sentido, ter no Planalto um inquilino que não só sabia falar, mas até usava mesóclises, pareceu um refrigério. 


Temer conseguiu reduzir a inflação, baixar a Selic e aprovar a PEC do Teto dos Gastos e a Reforma Trabalhista, mas prometeu um "ministério de notáveis" que se revelou uma notável agremiação de corruptos. Em maio de 2017, uma conversa de alcova gravada à sorrelfa por certo moedor de carne bilionário só não o derrubou porque a tropa de choque capitaneada pelo deputado Carlos Marun comprou votos das marafonas da Câmara para escudá-lo das "flechadas de Janot". Assim, o vampiro que tinha medo de fantasmas terminou seu mandato-tampão como "pato manco". 

 

Em 2019, já sem a proteção do escudo presidencial e denunciado por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Temer foi preso preventivamente na PF do Rio, mas saiu menos de uma semana depois, amparado por uma decisão monocrática do desembargador Ivan Athié (que ficou afastado da magistratura por 7 anos, acusado de venda de sentenças e formação de quadrilha, mas foi reintegrado por decisão do STF, que trancou a ação criminal). 

 

Durante a campanha de 2018, Bolsonaro prometeu combater implacavelmente a corrupção e os corruptos; dois anos depois, quando Sergio Moro já havia deixado o ministério da Justiça (acusando o chefe de interferir politicamente na autonomia da PF), o "mito" dos descerebrados disse que "acabou" com a Lava-Jato porque "não tem mais corrupção no governo". 


Ao longo de 79 fases, a Lava-Jato contabilizou 1.450 mandados de busca e apreensão, 211 conduções coercitivas, 132 mandados de prisão preventiva e 163 de temporária. Foram colhidos materiais e provas que embasaram 130 denúncias contra 533 acusados e geraram 278 condenações (sendo 174 nomes únicos), num total de 2.611 anos de pena. Foram propostas 38 ações civis públicas e 735 pedidos de cooperação internacional, e mais de R$ 4,3 bilhões foram recuperados por meio de 209 acordos de colaboração e 17 de leniência.

 

Continua...