Apesar de divergirem no percentual de preferência do eleitorado, todas as pesquisas apontam Lula e Bolsonaro como prováveis adversários no segundo turno. Algumas não descartam sequer a possibilidade de o petralha liquidar a fatura no dia 3 de outubro.
UM BATE-PAPO INFORMAL SOBRE INFORMÁTICA, POLÍTICA E OUTROS ASSUNTOS.
terça-feira, 31 de maio de 2022
A VOLTA DA FÊNIX MITOLÓGICA — MAS PODEM CHAMAR DE TERCEIRA VIA
Apesar de divergirem no percentual de preferência do eleitorado, todas as pesquisas apontam Lula e Bolsonaro como prováveis adversários no segundo turno. Algumas não descartam sequer a possibilidade de o petralha liquidar a fatura no dia 3 de outubro.
sexta-feira, 13 de agosto de 2021
O TEMPO PERGUNTOU PRO TEMPO QUAL É O TEMPO QUE O TEMPO TEM...
O TEMPO PERGUNTOU PRO TEMPO QUAL É O TEMPO QUE O TEMPO
TEM. O TEMPO RESPONDEU PRO TEMPO QUE NÃO TEM TEMPO PRA DIZER PRO TEMPO QUE O
TEMPO DO TEMPO É O TEMPO QUE O TEMPO TEM.
Para o professor e historiador Marco Antonio Villa, não
é nenhum exagero pensarmos já, imediatamente, no Brasil pós-Bolsonaro,
pois a reconstrução nacional — que será longa, difícil e complexa — precisa ser
iniciada o quanto antes, e deve começar o afastamento de todos que contribuíram
com o maior genocídio da história deste país.
Por outro lado, não se pode culpar quem, em 2018, viu em Bolsonaro
a única alternativa à volta do lulopetismo corrupto, responsável pela profunda
insatisfação da sociedade civil com a elite política e o funcionamento dos
poderes constituídos. Até porque o desejo de renovação é legítimo e como tal
deve ser louvado. O detalhe — e o diabo mora nos detalhes — é que oportunistas,
extremistas e reacionários se aproveitaram do momento para se venderem como a
personificação do anseio da população.
Eu concordo plenamente. Aliás, como bem disse Abraham
Lincoln, pode-se enganar a todos durante algum tempo e alguns por todo o
tempo, mas não se pode enganar a todos o tempo todo. Quando se deram conta de que
o rei estava nu, muita gente que apoiava o capitão — incluindo alguns que chegaram
a fazer parte do governo — se desiludiram com o "mito" de pés de
barro. E não sem razão.
Faltando pouco mais de um ano e quatro meses para a pior
gestão desde a redemocratização terminar, só apoia um presidente que conspira diuturnamente
contra a Constituição, os princípios democráticos e o ordenamento legal
republicano quem flerta com o nazifascismo e o genocídio ou visa locupletar-se com
a maior pandemia sanitária dos últimos séculos.
Com a Teoria da
Relatividade Geral, Einstein demonstrou que a percepção da
passagem do tempo depende de diversas variáveis. Mas o Brasil não é para
amadores — como ensinou certo maestro brasileiro até no nome. O fato é que o celebre
físico alemão não levou em conta (e nem poderia) algumas sutilezas surreais do
país do futuro em que até o passado é incerto. Vamos a alguns exemplos.
Lula foi condenado a mais de 20 anos de prisão em
regime fechado por 10 magistrados de três instâncias do Judiciário. Depois de
passar míseros
580 dias na cadeia, o petralha teve
a ficha-suja lavada e os direitos políticos restabelecidos. Agora,
graças a memória curta (ou a falta de miolos) de uma parcela significativa do
eleitorado, o criminoso de Garanhuns desponta nas pesquisas como provável
vencedor da eleição presidencial de 2022 (se houver, pois Bolsonaro não
quer).
A dublê de pastora e deputada carioca Flordelis, que
responde por homicídio triplamente qualificado (acusada de ser a mandante do
assassinato do marido, o também pastor Anderson do Carmo) foi
cassada na última quarta-feira — note que o crime ocorreu em junho de
2019 e, segundo alguns de seus pares, ela vinha se valendo do mandato para
evitar a prisão, coagir testemunhas e atrapalhar as investigações.
Em 2018, o STF condenou o primeiro parlamentar na (hoje
extinta) Operação Lava-Jato. A decisão da corte (a mesma que lavou a
ficha do ex-presidente corrupto mencionado linhas atrás) foi prolatada 1.183
dias; ou 169 semanas; 39 meses; ou 3 anos, 2 meses e 26 dias depois que o
então procurador-geral Rodrigo Janot entregou sua primeira lista
de parlamentares suspeitos de envolvimento no Petrolão. Nesse
entretempo, o ex-juiz federal Sergio Moro condenou 132 pessoas (tecnicamente,
foram 203 condenações, pois alguns acusados foram sentenciados mais de uma vez)
a penas que, somadas, totalizavam quase 2 mil anos de prisão.
Em novembro de 2016, graças
ao voto de minerva do ministro Dias Toffoli (o grande jurista
que foi
reprovado em dois concursos para juiz em São Paulo, ambas as vezes na
etapa preliminar, que avalia apenas conhecimentos gerais e noções básicas do
Direito), o STF reverteu a jurisprudência que permitia o início da
execução provisória da pena após a confirmação da sentença condenatória por um
juízo colegiado (a célebre "prisão em segunda instância").
Diante da chiadeira geral, deputados
e senadores se mobilizaram para restabelecer o status quo ante. No
Senado, pretendia-se promover uma alteração no Código de Processo Penal; na Câmara, alterar a Constituição através
de uma PEC. Mas aí veio o recesso,
depois a Covid, e então o assunto caiu no esquecimento.
Observação: A alteração no CPP pode ser feita em poucas semanas, ao passo que a proposta de
emenda constitucional tem tramitação mais lenta e burocrática, além de depender
da aprovação, em dois turnos, de 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores.
Agora a contrapartida: há coisa de um mês, as duas Casas
Legislativas aprovaram a toque de caixa um jabuti a Lei de Diretrizes
Orçamentárias com um "jabuti" que praticamente triplicou
o valor do fundo eleitoral. Na Câmara, a proposta teve 278 votos a
favor, 145 votos contra e uma abstenção; no Senado, o placar ficou em 40 votos
favoráveis ao projeto e 33 contrários. Bolsonaro tem até
o próximo dia 23 para decidir se sanciona ou veta esse descalabro.
Além de aumentar o Fundo Eleitoral para R$ 5,7
bilhões, o Congresso se movimenta para adotar duas medidas que têm
influência nas eleições do ano que vem: turbinar o Fundo Partidário —
aquele que é pago todos os anos às legendas — e retomar a propaganda das
legendas no rádio e na TV fora do período eleitoral. Em 2021, o Orçamento prevê
R$ 979,4 milhões para o Fundo Partidário. Para 2022, a estimativa é de
que o valor aumente para R$ 1,061 bilhão. Um projeto aprovado no Senado
em julho, porém, traz a volta da propaganda das siglas e aumenta os recursos do
Fundo Partidário para financiar as inserções no rádio e na TV. Se a
proposta receber o aval da Câmara e for sancionada pelo presidente, o valor passa
a R$ 1,3 bilhão no ano que vem. Somados os dois fundos (eleitoral e
partidário), o gasto público com as eleições de 2022 pode chegar a R$ 7
bilhões, um patamar inédito.
Antes de encerrar, vale salientar que:
1) desde o início da pandemia o
preço dos alimentos aumentou 15% no país. A taxa é quase o triplo da
inflação geral registrada no mesmo período, 5,2%.
2)125,6
milhões de brasileiros sofreram com insegurança
alimentar durante a pandemia. O número equivale a 59,3% da população
e se baseia em pesquisa realizada entre agosto e dezembro de 2020.
3) Em abril deste ano, o Brasil tinha 85,9 milhões de
ocupados, 3,3 milhões a menos do que no mesmo mês de 2020. No pior momento
da crise, quase 1,4 mil brasileiros eram demitidos por hora, diz
levantamento do IDados.
4) A taxa de desemprego ficou em 14,6% no trimestre encerrado em maio. Isso representa um contingente de 14,8 milhões de pessoas buscando por uma oportunidade no mercado de trabalho no país.
terça-feira, 29 de maio de 2018
AINDA SOBRE AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES
Observação: O presidente se diz propenso a desistir da reeleição e promete apoiar o candidato que se comprometer em manter seu “legado” e lhe garantir “proteção” no final do mandato. O ex-ministro Meirelles parece ser o nome mais indicado, até porque tem cacife para financiar sua campanha com dinheiro do próprio bolso e vem se mostrando disposto defender o governo em suas andanças Brasil afora, desde que sem citações ao nome do presidente nem eventos ao lado dele.
No ano passado, com um projeto de lei relatado na Câmara pelo deputado Vicente Cândido, do PT, e gerido no Senado por ninguém menos que o senador Romero Jucá, fizeram uma mágica que multiplicou dramaticamente, numa tacada só, os valores que a população deste país será obrigada a entregar aos políticos no decorrer de 2018. É uma conquista notável para os anais da arte de roubar. Quatro anos atrás a mesada anual das gangues que fazem o papel de “partidos” no Congresso Nacional era de 300 milhões de reais. Foi aumentando, aumentando, e agora, diante da necessidade de “defender a democracia”, está reforçada por estes novos 1,7 bi. A desculpa é que há eleições este ano e as doações de “caixa 2”, imaginem só, foram proibidas pelos nossos tribunais superiores. É mais ou menos assim: como está teoricamente mais difícil praticar crime eleitoral, chama-se o público para fornecer o dinheiro que os criminosos desembolsavam até agora.
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
HUMOR À BRASILEIRA VS HUMOR À PORTUGUESA
A VIDA É CURTA DEMAIS PARA LEVAR TUDO A FERRO E FOGO. SE VOCÊ NÃO PUDER RIR DE SI MESMO, ME CHAME QUE EU RIO POR VOCÊ.
A “Última Flor do Lácio”, como o poeta Olavo Bilac se referiu à língua portuguesa, é idioma oficial em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Só que os falantes de cá nem sempre — ou quase nunca — entendem perfeitamente o que falam os de lá e de acolá. E vice-versa.
Além de a cultura brasileira ser diferente, o próprio português falado aqui pelas nossas bandas está longe de ser uniforme. São comuns as variações de pronúncia, vocabulário e gramática conforme a região, a faixa etária, o grupo social e a situação de comunicação. Um paulista que estiver no Rio de Janeiro e quiser comprar “coxão mole”, por exemplo, deverá pedir “chã de dentro”; se estiver em Belém do Pará e quiser “carne moída”, terá de pedir “picadinho”.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Tem sido fabuloso o inverno brasileiro de 2026. Os presidentes do Senado e da República flertaram, namoraram ou se desentenderam, não por motivos políticos, mas para ganhar eleição ou dinheiro. O milagreiro — agora de chapéu — celebrou outra semeadura imaginária e prometeu que será ainda mais farta a colheita sucessivamente adiada desde 2024. Em agosto, garantiu que a picanha para todos estava prestes a descer do palanque em que se esconde desde a campanha de 2022. Até agora só deu as caras em churrascos no Palácio da Alvorada. Ocorrências espantosas animaram o inverno que vai terminando. Lula vive ensinando que quando um não quer dois não brigam, e que não há guerra que resista a uma conversa regada a cerveja no botequim da esquina. Mas agora anda provocando Donald Trump com desafios que o gringo valentão teme aceitar. Como se viu no desfile de 7 de Setembro, tropas armadas com carabinas, trabucos e facões deixam claro qual é a superpotência militar do subcontinente. É bom não mexer com o Brasil. Se mexerem com o País do Carnaval, aí estão a China, a Rússia, o MST e a agricultura familiar para enquadrar a extrema direita. Aparentemente insensatos, movimentos na seita lulista apenas reafirmam que, num inverno eleitoral, convém cumprir disciplinadamente as ordens do chefe que tudo sabe e tudo vê. Para que Fernando Haddad reprise em São Paulo o naufrágio de 2022, por exemplo, Lula ordenou à acriana Marina Silva e à sul-matogrossense Simone Tebet que disputem vagas no Senado discursando com sotaque de Piracicaba. Ao vice-presidente Geraldo Alckmin coube tornar-se o principal cabo eleitoral de José Dirceu. Janja parece ter guardado para as últimas horas da caça ao voto o trunfo que ensaiou ao longo do inverno: recitar com aquela voz de sessentona tatibitate os dois xingamentos em inglês que conseguiu decorar. Oitentão, Lula jura manter o tesão dos 30. O que anda piorando neste inverno é a memória do Biden brasileiro. Ele jurou, por exemplo, que nem sabia quem era a facilitadora de negociatas Roberta Luchsinger, comparsa do filho Lulinha. “Nunca vi essa mulher”, garantiu na sabatina na Globo. É possível que o buquê de fotos em que o presidente e a vigarista aparecem juntos seja parte de algum projeto secreto que logo mostrará ao mundo a sofisticação da inteligência artificial à brasileira. Como emergiram mais bandalheiras promovidas em parceria por Roberta, pelo filho Lulinha e por Marcola do Lula, seu chefe de gabinete, Lula pediu de volta a sala ao lado da sua. Mas faz de conta que mal conheceu o concorrente do Marcola do PCC. Com o estranhíssimo inverno entrando em seu último mês, muita gente imaginou que já vira coisas demais. Esses ignoram que a Era da Corrupção, inaugurada há quase 25 anos pela chegada da seita petista ao poder federal, transformou o Brasil numa espécie de clube dos cafajestes reservado a figurões que se julgam condenados à perpétua impunidade. Nunca faltaram representantes do Legislativo e do Executivo. A entrada de ministros do Supremo no bando dos que topam tudo por dinheiro transformou em questão de tempo o 15 de setembro de 2026. Daqui a muitas décadas, os brasileiros que tinham neste fim de inverno mais de 15 anos de idade e pelo menos 10 neurônios na cabeça continuarão lembrando com desoladora nitidez o que aconteceu no que deveria ter sido uma sessão extraordinária do STF convocada para tratar dos crimes cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes. Que Vargas Llosa, que nada. Que García Márquez, que nada. Perto do que se viu e ouviu, os assombros eternizados pelos gênios do realismo mágico são coisa de principiante pouco imaginoso. No tribunal que existiu até o começo do século, nem haveria caso a julgar: juízes corruptos só agiam nos campos de futebol. O plenário do Supremo era reservado a homens honrados. Se as trapaças da sorte ali infiltrassem um Alexandre de Moraes ou um Dias Toffoli, o corpo estranho seria expulso em meia hora pela maioria esmagadora de juristas decentes. Nem precisariam meter-se em patifarias: bastaria abrirem a boca ou redigirem um parágrafo. No documento em que tentou livrar-se das provas e evidências empilhadas pela Polícia Federal, por exemplo, Moraes cometeu mais de 50 atentados à língua portuguesa. Não pode mais posar de juiz por ter usado seus poderes ou para tentar manter em atividade a usina de dinheiro sujo administrada por Daniel Vorcaro. Como sofre de um profundo apreço por castigos adicionais, merece ser matriculado num curso de alfabetização de adultos e comparecer às aulas carregando a guilhotina que amputa todos os erres finais de verbos no infinitivo. Ele ainda acha que tem muita gente “pra prendê” e muita multa “pra aplicá”. Toffoli considerou-se impedido de participar do julgamento. Moraes não viu problema algum em absolver-se, sustentar que o criminoso é o ministro André Mendonça, que ousou divulgar o que a Polícia Federal descobriu ao devassar um celular pertencente a Vorcaro. Moraes, que se considera perseguido por inimigos da democracia, tenta acreditar que não é um cadáver insepulto. Fingem acreditar na fantasia outras três cavalgaduras que, na terça-feira, tentaram matar de vergonha o Supremo e o Brasil decente. O líder do grupo é o decano Gilmar Mendes. A caminho da aposentadoria, ele exibe o humor de quem vive perdendo a namorada. Também por isso, forma uma dupla afinada com o cinismo debochado do comunista Flávio Dino. Devoto de Mao Tsé-tung até a morte do ditador chinês, Dino aprecia assaltos noturnos a geladeiras e passeios em carros blindados emprestados pelo Judiciário maranhense. Completa o quarteto Cristiano Zanin. O que há na cabeça do novato? Pelo visto, apenas fios de cabelo que, enquanto agonizam, são penteados com muito capricho pelo ex-advogado de Lula. Os destroços produzidos pela passagem das quatro cavalgaduras do apocalipse transformaram o plenário do STF num terreno baldio que empilha trechos dos Dez Mandamentos, alguns dos sete pecados capitais, páginas rasuradas dos códigos legais, cláusulas de contratos suspeitíssimos e, claro, exemplares destroçados da Constituição. Foram encontradas também duas anotações manuscritas. “Lula é Moraes, Moraes é Lula”, dizia uma delas. A outra já pertence ao patrimônio popular: “Gilmar: cuide de não encher meu saco”. Talvez coubesse aí um “Vossa Excelência”. Mas só se deve tratar com polidez quem merece respeito. Não é o caso de chicaneiros que fizeram do STF uma instituição agonizante.
Texto publicado por Augusto Nunes na revista OESTE sob o título "AS BESTAS DO APOCALIPSE — CAVALGADURAS DE TOGA DESMORALIZAM O SUPREMO".
Em quase todos os países europeus existem variedades linguísticas regionais que, em maior ou menor grau, foram suplantadas pelo idioma nacional. Na Itália, por exemplo, as diferenças linguísticas podem ser bastante marcantes entre regiões e até entre cidades. Mas convém não confundir dialeto com sotaque: embora um mesmo dialeto possa ser pronunciado com diferentes sotaques, o sotaque diz respeito principalmente à pronúncia, enquanto o dialeto envolve também vocabulário, gramática e outros aspectos estruturais da língua.
Em Portugal, quem tentar furar uma fila será mandado para o “rabo da bicha”. As “pastelarias” não vendem pastéis de carne, queijo, palmito etc., mas pães doces, bolinhos e outras guloseimas do gênero. Lá, não se vai necessariamente ao dentista, mas ao estomatologista. Puto é garoto, e canalha pode designar um grupo de crianças. Autocarro é ônibus; comboio é trem; e “almeida” pode designar, coloquialmente, um gari. Bica é cafezinho; cueca é o que no Brasil chamamos de calcinha, e “pica” pode significar injeção. Boceta é uma pequena caixa para guardar miudezas; punheta, em “punheta de bacalhau”, é um prato; cacete é pão; e grelo é o rebento ou haste de certas plantas, usado inclusive na culinária.
No Brasil, com 5.570 municípios espalhados por mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, não seria de esperar que mais de 200 milhões de habitantes falassem todos do mesmo jeito e se comportassem do mesmo modo. Mas convém lembrar que tamanho não é documento: o território da Itália é muito menor que o brasileiro e, ainda assim, apresenta uma enorme diversidade linguística.
Por essas e outras, não espere que alguém nascido e criado no município gaúcho de Santa Vitória do Palmar, na divisa com o Uruguai, entabule uma conversa perfeitamente fluente com um baiano de Ibó, na divisa com Pernambuco. Para ter uma ideia melhor do ponto que quero ressaltar, assista a este vídeo.
Tecnicamente, a língua é um sistema de comunicação compartilhado por uma comunidade; o idioma é a língua reconhecida como própria de determinado povo ou país; e os dialetos são variedades linguísticas associadas, entre outros fatores, a determinadas regiões ou grupos. No entanto, outras peculiaridades além do sotaque e das expressões idiomáticas “personalizam” a maneira como o idioma que herdamos dos colonizadores é falado no Brasil muda conforme a localização geográfica, a história, o grupo social e a situação em que é utilizado.
As variações podem ser diatópicas (regionais), diacrônicas (históricas), diastráticas (sociais) e diafásicas (estilísticas). Os dialetos, por sua vez, são variedades linguísticas associadas sobretudo a diferenças regionais, embora possam sofrer a influência de fatores históricos e sociais.
Palavras como “mandioca”, “aipim”, “macaxeira”, “castelinha”, “uaipi”, “maniva”, “maniveira” e “pão-de-pobre”, entre outras, designam a mesma raiz tuberosa, mas são usadas em diferentes regiões do Brasil. O chamado R caipira, característico de várias regiões do interior do país, é resultado de uma história linguística complexa, que envolve a formação do português brasileiro, o contato com línguas indígenas e africanas e a evolução regional da língua. Sua origem, portanto, não cabe numa explicação tão simples quanto a de que os indígenas “não conseguiam pronunciar” o R dos portugueses.
Isso também ajuda a explicar por que determinadas regiões desenvolveram pronúncias bastante particulares, inclusive fenômenos como a transformação de determinados sons em outros. E, com a chegada dos italianos a São Paulo, o sotaque paulistano incorporou características da pronúncia dos imigrantes, especialmente em bairros tradicionais como Moóca, Brás e Bexiga.
Já o R carioca, especialmente em determinadas posições, apresenta características que foram historicamente associadas à influência portuguesa e francesa, entre outras. O S chiado do Rio também tem uma história ligada ao português europeu. Em matéria de sotaque, como se vê, até a história da imigração deixa suas digitais.
Um poeta escreveu: “Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar.” Às vezes, não acentuar parece ser mesmo a solução. Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê e o coco ao cocô. Mas nem sempre a ausência do acento é favorável: pense no cágado, por exemplo, cujo nome pode ficar bastante comprometido quando alguém pensa que o acento é mera decoração. E há outros casos, claro. Eu não me medico; vou ao médico. Quem baba não é a babá. Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária. Seus pais vêm do mesmo país?
A diferença na palavra pode ser apenas um acento — e assento não tem acento. Assento fica embaixo; acento, em cima. Embaixo é junto; em cima, separado. Seria maio o mês mais apropriado para usar maiô? Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá? O que tem a pele do Pelé? O que há em comum entre o camelo e o camelô? O que será que a fábrica fabrica? E tudo que se musica vira música?
Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com pessoas más? Será que tudo que eu valido se torna válido? E, entre o amem e o amém, que tal os dois? Na sexta, comprei uma cesta logo após a sesta.
É a primeira vez que tu não o vês. Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha. Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo. Vão cassar o direito de casar de dois pais no meu país. Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração. Para começar o concerto, tiveram que fazer um conserto. Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.
Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa. Calça, você bota; bota, você calça. Oxítona é proparoxítona. Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico. E paro por aqui, sem mais delongas, que esta lista já está longa.
Toda essa conversa sobre língua nos leva, finalmente, ao assunto que motivou esta postagem: o humor. Da mesma forma que as palavras, as piadas e as anedotas também mudam conforme o país Ou seja, é quase a mesma língua, mas não é necessariamente o mesmo riso.
No Brasil, o humor costuma estar muito ancorado no cotidiano, no regional e nos personagens. A gente ri do sotaque mineiro, da tia do zap, do carioca malandro, da sogra, do sujeito atrapalhado. É um humor frequentemente baseado na identificação imediata. Por isso, o stand-up comedy encontrou terreno fértil por aqui: um sujeito sozinho, contando situações da própria vida, pode sustentar uma apresentação inteira. E não raro entram em cena o corpo, a careta, a imitação, o improviso e, sobretudo, a velocidade.
Em Portugal há uma forte tradição de humor baseado na observação social, na ironia, no jogo de palavras e no absurdo. Menos personagem necessariamente caricato; mais situação banal levada às últimas consequências. Uma reunião de condomínio, um telejornal, uma repartição pública: basta pegar uma coisa perfeitamente normal e esticá-la até ela se tornar surreal. E as referências históricas, políticas, literárias e culturais podem desempenhar um papel importante. No caso de Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, estudos sobre suas crônicas identificam justamente o uso recorrente da ironia, da intertextualidade, dos contrassensos e do nonsense.
No Brasil, “português” ainda é, há décadas, personagem recorrente de piada — geralmente por causa de supostos mal-entendidos linguísticos ou de uma pretensa ingenuidade. O próprio Ricardo Araújo Pereira já observou que muitas dessas piadas podem nascer justamente de diferenças na maneira de interpretar as palavras e as situações. E o caminho inverso também existe: em Portugal, o brasileiro frequentemente aparece como personagem humorístico por causa do sotaque, das novelas, dos estereótipos culturais e das diferenças de comportamento.
Há ainda uma diferença interessante de ritmo. No humor brasileiro, é comum a sucessão rápida de gags e punchlines. No humor português, muitas vezes a graça pode depender mais da ironia, da pausa, da construção da situação e do contraste entre o que é dito e a maneira como é dito. Mas convém ter em mente que isso é tendência, não regra.
Há humoristas brasileiros de humor seco, cerebral e cheio de ironia, assim como há portugueses perfeitamente escrachados. O humor, felizmente, não respeita fronteiras nem tratados internacionais. Até porque o próprio intercâmbio entre os dois países mostra que as diferenças podem ser matéria-prima para a comédia. Gregório Duvivier e Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, já transformaram as diferenças linguísticas entre Brasil e Portugal em espetáculo conjunto.
No fundo, talvez a diferença possa ser resumida assim: O brasileiro frequentemente quer fazer você rir junto. O português, muitas vezes, quer fazer você perceber o absurdo da situação — e rir depois. Ou, para simplificar ainda mais: Piada brasileira: “Olha o que aconteceu COMIGO.” Piada portuguesa: “Olha como NÓS somos ridículos.”
Se você não entendeu a piada, não se preocupe. Pode ser apenas uma questão de sotaque. Ou de acento. Ou de assento. Ou, quem sabe, de português mesmo.
sábado, 11 de novembro de 2023
QUEM FOI QUE INVENTOU O BRASIL... (FINAL)
Rumores de que um misterioso país do ocidente era uma espécie de paraíso terreno, imagem do Éden descrito na Bíblia, começaram a circular no início da Idade Média. Entre os celtas da Irlanda, a terra encantada ganhou o nome de Hy Brazil — lembrando que o nome dado posteriormente a Pindorama deriva do termo fenício "barzil" — que significava "ferro" — ou do celta "bress" — raiz da palavra inglesa bless, que significa abençoar —, nada tendo a ver, portanto, com a madeira "da cor da brasa" que abundava no litoral do Nordeste e de cuja casca os portugueses extraíam a tinta vermelha usada para tingir as vestes mais luxuosas de Lisboa.
Um descobridor alternativo das Américas pode ter sido um religioso celta em busca do paraíso terrestre: A Navegação de São Brandão, escrita na Irlanda por volta do ano 900, conta a história de um monge irlandês que em 556 teria partido pelas águas do Atlântico em um currach (pequeno barco de madeira, coberto de peles e usado por pescadores). Reza a lenda que São Brandão, com uma pequena tripulação de monges-marinheiros, encontrou a fabulosa terra de Hy Brazil, "cheia de bosques e grandes rios recheados de peixes", e voltou à Irlanda para contar a história.
Inobstante a existência de provas irrefutáveis de que fenícios ou celtas tenham estado no Novo Mundo, as chances são consideráveis. A corrente Sul-Equatorial (a mesma que pode ter trazido os chineses ao Brasil) seria o caminho mais provável para exploradores antigos, que, inclusive, dispunham de navios capazes de carregar mais mantimentos que as naus e caravelas portuguesas. Considerando que eles navegaram pela costa da África até o século IV a.C., se um de seus barcos que tivesse entrado por acaso na corrente Sul-Equatorial seria levado diretamente para as praias de Pernambuco. E o mesmo caminho pode ter sido seguido por celtas, romanos e árabes.
Em Historia General de las Indias e de las Tierras del Mar Oceano, escrito em 1535, o espanhol Gonçalo Fernandes de Oviedo assim descreve o espírito de sua época: "E Deus quis que o Novo Mundo fosse descoberto pelos reis cristãos e seus vassalos, e que eles aceitassem alegremente o trabalho de converter e conquistar os idólatras. Bendito seja o Senhor!". Eram tempos em que os espanhóis invadiam e dominavam as terras descobertas por Colombo "para maior Glória de Deus", e foram os próprios conquistadores que começaram a transformar sua aventura em história: Oviedo, um fidalgo que veio às Américas para colonizar, foi o primeiro "cronista de Índias" da coroa espanhola — ou seja, o historiador oficial encarregado de justificar e glorificar a conquista. A "descoberta" foi descrita como uma vontade divina, e os índios, como infiéis sem civilização que, a exemplo dos negros africanos, deviam se converter ou virar escravos.
Cronistas da época também esculpiram a versão de que nenhum outro "povo civilizado" alcançara o Novo Mundo antes dos ibéricos — já que o dono é quem chegou primeiro, e a ele cabe o direito de ficar rico com isso. O mesmo raciocínio foi adotado dois séculos depois pelos colonizadores ingleses da Austrália: embora a ilha já tivesse sido avistada pelos portugueses em 1522 e pelos holandeses em 1614 — e talvez pelos chineses bem antes disso, até porque, de todos os possíveis descobridores da Oceania, só eles vestiam "longas túnicas", como os misteriosos visitantes das lendas aborígenes e maoris —, o "descobridor oficial" foi o britânico James Cook, que tomou posse da terra em nome da Coroa inglesa(vide capítulos anteriores).
No Brasil, a transformação do apagado Cabral em herói só ocorreu no século XIX. Até então, livros de história mal falavam nele. Em Portugal, também era pouco lembrado: a casa que pertencera a sua família, em Santarém, ficou abandonada por séculos e chegou a virar um prostíbulo. Colombo também permaneceu nas sombras por séculos — e só foi reabilitado em 1866, quando americanos de origem latina criaram o Columbus Day, visando destacar seu na colonização da América numa época em que imigrantes latinos eram desprezados pela elite anglo-saxã. Com o tempo, a celebração da "descoberta" foi exportada para a América Central e do Sul pelos "vencedores" europeus, brancos e cristãos.
Observação: Se a história tivesse sido escrita pelos perdedores, esses relatos certamente adquiririam um tom apocalíptico. No México e no Peru, sacerdotes indígenas decretavam que seus deuses nativos estavam mortos e anunciavam o fim da civilização. O que os "descobertos" pensavam sobre a tal Idade dos Descobrimentos pode ser resumido por um único verso de um poema escrito no México na aurora do Novo Mundo: "Oh meus filhos, em que tempos detestáveis vocês foram nascer!"
Discutir se os primeiros a chegar no Novo Mundo eram chineses, nórdicos ou os espanhóis guarda um certo equívoco histórico. Até porque as Américas já haviam sido descobertas pelo menos 15 mil anos antes, e a Oceania, cerca de 46 mil! Quando os ancestrais dos portugueses ainda viviam na Pré-História, os primeiros ancestrais daqueles que os ingleses batizaram de aborígenes chegaram à Oceania caminhando por terra entre as ilhas do Pacífico e o litoral da Ásia. Em 1999, o arqueólogo brasileiro Walter Neves examinou um crânio feminino encontrado em Minas Gerais e descobriu feições aborígenes. O fóssil foi batizado de Luzia e data de 12 mil anos atrás.
Os tataravôs de Luzia devem ter chegado à América vindos do Sudeste Asiático. Já os ancestrais dos nossos tupiniquins, dos astecas mexicanos e dos apaches dos EUA só começaram a povoar o Novo Mundo no século X a. C., vindos da Sibéria pelo Estreito de Bering. Como o interior da América do Norte estava congelado naquela época, os "prototupis" navegaram até a América Central e, a partir de lá, desbravaram o interior, chegando até os confins da Terra do Fogo.
Em face do exposto, o Brasil e as Américas foram descobertos várias vezes ao longo dos séculos.
Com Superinteressante
terça-feira, 30 de abril de 2019
O BRASIL NÃO É PARA PRINCIPIANTES
O “caso Queiroz” é um bom exemplo — que ainda não produziu efeitos ainda mais deletérios porque novos fatos vêm se sobrepondo dia sim, outro também. Outro é a demissão de Gustavo Bebianno — o grande articulador da campanha do capitão — da secretaria-geral da Presidência, cuja permanência no governo se tornou insustentável depois de ter sido chamado publicamente de mentiroso pelo filho zero dois. Outro, ainda, remete ao “laranjal do PSL”, e haveria muitos mais, sem mencionar as estultices de um presidente que parece escolher os momentos mais impróprios para dizer o que não deve (haja vista a estúpida, despropositada e escandalosa queda de braço com o presidente da Câmara, que dificultou ainda mais a tramitação da PEC da Previdência).




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