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terça-feira, 31 de maio de 2022

A VOLTA DA FÊNIX MITOLÓGICA — MAS PODEM CHAMAR DE TERCEIRA VIA


Contam-se nos dedos os países desenvolvidos em que pessoas perdem suas vidas em decorrência de chuvas. Por aqui, só neste ano houve tragédias dessa natureza na Bahia, no Rio e em Pernambuco. Coisa de terceiro mundo? Não. De quinto. Dito isso, passo ao assunto do dia.

O saudoso maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, brasileiro até no nome, sabia das coisas. Atribui-se a ele a máxima segundo a qual o Brasil não é para principiantes. Prova disso é que, a menos de cinco meses do pleito presidencial, temos de um lado o ex-presidiário fantasiado de “ex-corrupto”, que quer voltar à cena do crime, e do outro um presidente investigado em seis inquéritos e alvo de quase 150 pedidos de impeachment, que move mundos e fundos (sobretudo fundos) para continuar na cena... digo, no cargo.

Por mal de nossos pecados, um desses pesadelos poderá se tornar realidade. Até porque, como bem disse Pelé, e Figueiredo depois dele, o brasileiro não está preparado para votar. Aliás, esta banânia só teria alguma chance de dar certo quando e se o povinho de merda que Deus colocou aqui compreendesse que políticos não devem ser endeusados, mas cobrados e trocados regularmente. 

Apesar de divergirem no percentual de preferência do eleitorado, todas as pesquisas apontam Lula e Bolsonaro como prováveis adversários no segundo turno. Algumas não descartam sequer a possibilidade de o petralha liquidar a fatura no dia 3 de outubro. 

Não sei até que ponto pesquisas feitas com tanta antecedência são confiáveis, mas acho que elas prestam um desserviço ao país ao estimularem ainda mais a polarização. Por outro lado, é nítido que o "esclarecidíssimo" eleitorado canarinho apagou da memória a roubalheira havida nos 13 anos e fumaça de gestões lulopetistas e a tragédia que se tornou o país sob o "mito" dos bolsomínions. Para piorar, nhô ruim e nhô pior vomitam falácias eleitoreiras em palanques antecipados sem que a pusilânime Justiça Eleitoral dê um pio. Mas nenhum dos dois apresenta um projeto de governo como manda o figurino. 

Observação: Desde o início do ano, o TSE recebeu 17 ações que apontam propaganda eleitoral antecipada na disputa presidencial, na disputa presidência, sendo 12 contra a campanha de Bolsonaro e 5 contra a de Lula, mas até o momento não houve qualquer punição efetiva.

Bolsonaro continua fazendo o que sempre fez desde o instante em que subiu a rampa do Palácio do Planalto: tudo, menos governar o país. Lula, recém conduzido ao tabuleiro da sucessão por uma suprema conspirata, quer reescrever a história distorcendo os fatos, a começar pela “inocência”que o STF não reconheceu. 

A decisão tomada por 8 a 3 pelas togas anulou os processos do tríplex, do sítio e outros dois envolvendo o Instituto Lula, mas não absolveu o camelô de empreiteiro, que percorre a conjuntura na esdrúxula condição de “ex-corrupto”, apesar de sua culpabilidade ter sido reconhecida em três instâncias no caso do tríplex do Guarujá (cuja sentença transitou em julgado) e duas no caso sítio de Atibaia.

A mítica terceira via — que já começava a duvidar da própria existência — ressurgiu timidamente depois que Sergio Moro e João Doria foram elididos da disputa. A bola da vez é a senadora Simone Tebet, já que Ciro Gomes encanta com sua grandiloquência, mas afugenta o eleitorado com a postura beligerante que já lhe garantiu três derrotas em três disputas presidenciais. A menos que o imprevisto tenha voto decisivo na assembleia dos acontecimentos, o cearense de Pindamonhangaba (SP) morrerá na praia pela quarta vez.

Embora ainda precise confirmar a consolidação da terceira via, crescer nas pesquisas e driblar eventuais traições dentro do próprio partido, Simone teve a pré-candidatura referendada por emedebistas dos principais estados do país. Mas nem Doria nem o senador Tasso Jereissati se empolgaram com a ideia de disputar a vice-presidência na chapa encabeçada por ela. Já Eduardo Leite — que foi derrotado nas conturbadas prévias tucanas — aceita ser coadjuvante. O problema é que a ala tucana liderada pelo deputado Aécio Neves entende que o PSDB deve encabeçar a chapa. Afinal, por que simplificar quando se pode complicar?

O senso comum recomenda não contar com o ovo na cloaca da galinha, mas a pesquisa Ipespe divulgada na última sexta-feira mostrou que o potencial de voto em Simone Tebet aumentou 11% em uma semana. Ele agora é de 28%. Além dos 5% que disseram ao instituto que votariam nela com certeza, há outros 23% que poderiam votar. Há sete dias, os números eram 3% e 14%. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

O TEMPO PERGUNTOU PRO TEMPO QUAL É O TEMPO QUE O TEMPO TEM...

 

O TEMPO PERGUNTOU PRO TEMPO QUAL É O TEMPO QUE O TEMPO TEM. O TEMPO RESPONDEU PRO TEMPO QUE NÃO TEM TEMPO PRA DIZER PRO TEMPO QUE O TEMPO DO TEMPO É O TEMPO QUE O TEMPO TEM.

Para o professor e historiador Marco Antonio Villa, não é nenhum exagero pensarmos já, imediatamente, no Brasil pós-Bolsonaro, pois a reconstrução nacional — que será longa, difícil e complexa — precisa ser iniciada o quanto antes, e deve começar o afastamento de todos que contribuíram com o maior genocídio da história deste país.

Por outro lado, não se pode culpar quem, em 2018, viu em Bolsonaro a única alternativa à volta do lulopetismo corrupto, responsável pela profunda insatisfação da sociedade civil com a elite política e o funcionamento dos poderes constituídos. Até porque o desejo de renovação é legítimo e como tal deve ser louvado. O detalhe — e o diabo mora nos detalhes — é que oportunistas, extremistas e reacionários se aproveitaram do momento para se venderem como a personificação do anseio da população.

Eu concordo plenamente. Aliás, como bem disse Abraham Lincoln, pode-se enganar a todos durante algum tempo e alguns por todo o tempo, mas não se pode enganar a todos o tempo todo. Quando se deram conta de que o rei estava nu, muita gente que apoiava o capitão — incluindo alguns que chegaram a fazer parte do governo — se desiludiram com o "mito" de pés de barro. E não sem razão.

Faltando pouco mais de um ano e quatro meses para a pior gestão desde a redemocratização terminar, só apoia um presidente que conspira diuturnamente contra a Constituição, os princípios democráticos e o ordenamento legal republicano quem flerta com o nazifascismo e o genocídio ou visa locupletar-se com a maior pandemia sanitária dos últimos séculos.

Com a Teoria da Relatividade Geral, Einstein demonstrou que a percepção da passagem do tempo depende de diversas variáveis. Mas o Brasil não é para amadores — como ensinou certo maestro brasileiro até no nome. O fato é que o celebre físico alemão não levou em conta (e nem poderia) algumas sutilezas surreais do país do futuro em que até o passado é incerto. Vamos a alguns exemplos.

Lula foi condenado a mais de 20 anos de prisão em regime fechado por 10 magistrados de três instâncias do Judiciário. Depois de passar míseros 580 dias na cadeia, o petralha teve a ficha-suja lavada e os direitos políticos restabelecidos. Agora, graças a memória curta (ou a falta de miolos) de uma parcela significativa do eleitorado, o criminoso de Garanhuns desponta nas pesquisas como provável vencedor da eleição presidencial de 2022 (se houver, pois Bolsonaro não quer).

A dublê de pastora e deputada carioca Flordelis, que responde por homicídio triplamente qualificado (acusada de ser a mandante do assassinato do marido, o também pastor Anderson do Carmo) foi cassada na última quarta-feira — note que o crime ocorreu em junho de 2019 e, segundo alguns de seus pares, ela vinha se valendo do mandato para evitar a prisão, coagir testemunhas e atrapalhar as investigações.

Em 2018, o STF condenou o primeiro parlamentar na (hoje extinta) Operação Lava-Jato. A decisão da corte (a mesma que lavou a ficha do ex-presidente corrupto mencionado linhas atrás) foi prolatada 1.183 dias; ou 169 semanas; 39 meses; ou 3 anos, 2 meses e 26 dias depois que o então procurador-geral Rodrigo Janot entregou sua primeira lista de parlamentares suspeitos de envolvimento no Petrolão. Nesse entretempo, o ex-juiz federal Sergio Moro condenou 132 pessoas (tecnicamente, foram 203 condenações, pois alguns acusados foram sentenciados mais de uma vez) a penas que, somadas, totalizavam quase 2 mil anos de prisão.

Em novembro de 2016, graças ao voto de minerva do ministro Dias Toffoli (o grande jurista que foi reprovado em dois concursos para juiz em São Paulo, ambas as vezes na etapa preliminar, que avalia apenas conhecimentos gerais e noções básicas do Direito), o STF reverteu a jurisprudência que permitia o início da execução provisória da pena após a confirmação da sentença condenatória por um juízo colegiado (a célebre "prisão em segunda instância"). Diante da chiadeira geral, deputados e senadores se mobilizaram para restabelecer o status quo ante. No Senado, pretendia-se promover uma alteração no Código de Processo Penal; na Câmara, alterar a Constituição através de uma PEC. Mas aí veio o recesso, depois a Covid, e então o assunto caiu no esquecimento.

Observação: A alteração no CPP pode ser feita em poucas semanas, ao passo que a proposta de emenda constitucional tem tramitação mais lenta e burocrática, além de depender da aprovação, em dois turnos, de 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores.

Agora a contrapartida: há coisa de um mês, as duas Casas Legislativas aprovaram a toque de caixa um jabuti a Lei de Diretrizes Orçamentárias com um "jabuti" que praticamente triplicou o valor do fundo eleitoral. Na Câmara, a proposta teve 278 votos a favor, 145 votos contra e uma abstenção; no Senado, o placar ficou em 40 votos favoráveis ao projeto e 33 contrários. Bolsonaro tem até o próximo dia 23 para decidir se sanciona ou veta esse descalabro.

Além de aumentar o Fundo Eleitoral para R$ 5,7 bilhões, o Congresso se movimenta para adotar duas medidas que têm influência nas eleições do ano que vem: turbinar o Fundo Partidário — aquele que é pago todos os anos às legendas — e retomar a propaganda das legendas no rádio e na TV fora do período eleitoral. Em 2021, o Orçamento prevê R$ 979,4 milhões para o Fundo Partidário. Para 2022, a estimativa é de que o valor aumente para R$ 1,061 bilhão. Um projeto aprovado no Senado em julho, porém, traz a volta da propaganda das siglas e aumenta os recursos do Fundo Partidário para financiar as inserções no rádio e na TV. Se a proposta receber o aval da Câmara e for sancionada pelo presidente, o valor passa a R$ 1,3 bilhão no ano que vem. Somados os dois fundos (eleitoral e partidário), o gasto público com as eleições de 2022 pode chegar a R$ 7 bilhões, um patamar inédito.

Antes de encerrar, vale salientar que:

1) desde o início da pandemia o preço dos alimentos aumentou 15% no país. A taxa é quase o triplo da inflação geral registrada no mesmo período, 5,2%.

2)125,6 milhões de brasileiros sofreram com insegurança alimentar durante a pandemia. O número equivale a 59,3% da população e se baseia em pesquisa realizada entre agosto e dezembro de 2020

3) Em abril deste ano, o Brasil tinha 85,9 milhões de ocupados, 3,3 milhões a menos do que no mesmo mês de 2020. No pior momento da crise, quase 1,4 mil brasileiros eram demitidos por hora, diz levantamento do IDados.

4) A taxa de desemprego ficou em 14,6% no trimestre encerrado em maio. Isso representa um contingente de 14,8 milhões de pessoas buscando por uma oportunidade no mercado de trabalho no país.

terça-feira, 29 de maio de 2018

AINDA SOBRE AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES


O que dizer de um país que entra em colapso quando uma categoria de trabalhadores resolve cruzar os braços em protesto contra os reajustes dos combustíveis?  Um país onde o candidato mais lembrado nas pesquisas de intenção de voto é um criminoso condenado? Onde o presidente amarga a maior rejeição da história, mas sonha com uma quimérica reeleição, quando deveria se fingir de paisagem e ficar calado até o final do seu mandato? Onde o eleitorado é majoritariamente apedeuta e insiste em perpetuar no poder políticos fisiologistas e desonestos? Nada. Pelo menos, se quisermos nos manter no limiar do politicamente correto, do aceitável, do publicável. Vamos adiante.

Temer não só abriu as pernas, mas ficou literalmente de quatro para os caminhoneiros ― que ainda relutam em pôr um fim à paralisação, desbloquear as rodovias e voltar ao trabalho. Uma paralisação que hoje entre no nono dia, que vem causando prejuízos incalculáveis para a já combalida economia, e que deve custar 10 bilhões de reais aos cofres públicos (dinheiro dos contribuintes) para ser debelada.

Observação: O presidente se diz propenso a desistir da reeleição e promete apoiar o candidato que se comprometer em manter seu “legado” e lhe garantir “proteção” no final do mandato. O ex-ministro Meirelles parece ser o nome mais indicado, até porque tem cacife para financiar sua campanha com dinheiro do próprio bolso e vem se mostrando disposto defender o governo em suas andanças Brasil afora, desde que sem citações ao nome do presidente nem eventos ao lado dele.

A candidatura de Geraldo Alckmin continua patinando, com vergonhosos 8% de intenções de voto. Mas não é para menos. Se já não bastasse a absoluta falta de carisma do "picolé de chuchu" e a recente prisão de seu colega de partido Eduardo Azeredo, agora surge mais uma investigação envolvendo seu nome: de acordo com o doleiro Adir Assad, Alckmin teria recebido, através de seu cunhado, 5 milhões de reais em "caixa 2" para sua campanha. Os tucanos já falam até em substituí-lo por outro pré-candidato, mas o ex-governador paulista e atual presidente da sigla reluta, não só porque quer ser presidente da República, mas também porque não lhe agrada a perspectiva de João Dória disputar o cargo em seu lugar.

Em última análise, o que esperar de bom de uma eleição em que todos os candidatos, com a exceção de um só, vão fazer suas campanhas com dinheiro que roubaram diretamente dos cidadãos? O Tesouro Nacional vai doar aos políticos, para suas “despesas de campanha” deste ano, um presente extra de 1,7 bilhão de reais, já separados no orçamento de 2018. Como bem lembrou J.R Guzzo em sua coluna, trata-se de uma aberração que tem a coragem de chamar-se “Fundo de Defesa da Democracia”, ou algo assim. Vem se somar ao “Fundo Partidário”, vigarice antiga criada para dar aos partidos políticos, a cada ano, quantias desviadas dos impostos e destinadas a ajudar na sua “manutenção”.

No ano passado, com um projeto de lei relatado na Câmara pelo deputado Vicente Cândido, do PT, e gerido no Senado por ninguém menos que o senador Romero Jucá, fizeram uma mágica que multiplicou dramaticamente, numa tacada só, os valores que a população deste país será obrigada a entregar aos políticos no decorrer de 2018. É uma conquista notável para os anais da arte de roubar. Quatro anos atrás a mesada anual das gangues que fazem o papel de “partidos” no Congresso Nacional era de 300 milhões de reais. Foi aumentando, aumentando, e agora, diante da necessidade de defender a democracia, está reforçada por estes novos 1,7 bi. A desculpa é que há eleições este ano e as doações de caixa 2, imaginem só, foram proibidas pelos nossos tribunais superiores. É mais ou menos assim: como está teoricamente mais difícil praticar crime eleitoral, chama-se o público para fornecer o dinheiro que os criminosos desembolsavam até agora.

Note o leitor que os partidos queriam 3,5 bilhões de reais, e o PT exigia até 6 bi, ao fixar o valor do “Fundo” numa porcentagem do orçamento da União. De um jeito ou de outro, é bom para as “ORCRIMs”, bom para os políticos e ruim para todos nós. Este dinheiro tem de sair de algum lugar, e este lugar é o nosso bolso. Também não pode ser duplicado. Se foi para os partidos é porque não foi para ninguém mais; no caso de 2018, quase 500 milhões de reais foram desviados das áreas de saúde e educação para o cofre dessas figuras que estão se propondo a salvar o Brasil. O fabuloso “Estado” brasileiro, essa entidade sagrada para o pensamento da esquerda nacional, não tem dinheiro para comprar um rolo de esparadrapo. Mas tem, de sobra, para dar a qualquer escroque que consegue o registro de uma candidatura.

A isso o PT e a esquerda em geral dão nome de conquista democrática popular é o prodigioso financiamento público das campanhas eleitorais, que segundo o seu evangelho elimina a influência “das grandes empresas” nas eleições, etc. e tal. É um espanto, pois o PT foi o mais voraz de todos os tomadores de dinheiro de empreiteiras de obras e outros magnatas que jamais passou pela política brasileira. Agora, está avançando também em cima dos impostos pagos pela população e faz isso com o apoio apaixonado dos seus piores inimigos na cena política, os famosos eles amaldiçoados por Lula há mais de 30 anos e acusados de criar todas as desgraças do Brasil. É uma atração e tanto. Derruba até figuras com os teores de pureza revolucionária da candidata Manuela D’Ávila, que faz cara de horror diante da hipótese de sujar as mãos com essas sórdidas questões financeiras. Prefere enfiar as mesmas mãos diretamente no nosso bolso ― como se assim o dinheiro roubado ficasse limpo. Da direita velha nem adianta falar; roubar é o seu destino. Mas quando a jovem de esquerda age igual, e nem se dá o trabalho de disfarçar, é que a coisa está realmente preta.

Para concluir, relembro a pergunta que deixei no ar na postagem anterior, sobre o motivo pelo qual Lula continua figurando nas pesquisas de intenção de voto, e cito a explicação com que a jornalista Dora Kramer nos brindou, em sua coluna, na revista Veja desta semana:

O político, muito mais que o poeta aludido por Fernando Pessoa, é um fingidor. Exagero? Não é o que nos dizem os candidatos e partidos de maior visibilidade no cenário político-eleitoral de um Brasil em fase de completa (e, dependendo do ponto de vista, benfazeja) desordem eleitoral. Todos simulam tão completamente que fingem padecer de um mal que realmente sentem. Há dor maior para o PT que ter seu único ativo transformado em passivo prisioneiro? Pois ele prefere fazer de conta que anda tudo muito bem, que a candidatura prossegue em busca de um vice e de um programa de governo, adiando o confronto com a realidade para um momento de “maior impacto”, mais próximo das eleições. (O grifo é meu).

Longe ou perto, que “impacto” objetivo provocaria tal gesto? De maneira concreta, nenhum. Pelo seguinte: hoje, Lula não pode concorrer. Mas vamos que possa disputar por obra de recursos judiciais e, assim, vença. Se ganhar, não governará, dada a sua condição de presidiário. De onde a resultante eleitoral seria nula, a menos que se aventasse a hipótese inconstitucional de a Justiça aceitar revogarem-se os votos. Diante de tal impossibilidade, por que, então, Lula segue candidato? Simples: para que o nome dele se mantenha nas pesquisas e, com isso, se prolongue o mito de “líder popular”, ainda que na realidade não lidere sequer o próprio destino. Transita-se, nesse quadro, em pura fantasia. (O grifo é meu).

Vendem-se tantos terrenos na Lua quantos crédulos estiverem dispostos a comprá-los, independentemente do campo político-ideológico a que pertencem. Há os que acreditam na verborragia supostamente inteligente e consistente de um Ciro Gomes que promete luta inclemente contra o fisiologismo do Congresso, a revogação de “medidas golpistas” e a queda dos juros bancários mediante “poderes imperiais” conferidos ao presidente, segundo ele, em seus primeiros seis meses de governo. Há os que acreditam na pregação violenta de Jair Bolsonaro e os que creem piamente na proposta de uma “união de centro” sem candidato nem amálgama de unidade à vista. Bem-intencionados, cujas intenções não se mostram explícitas ou factíveis num Brasil radicalizado pela natureza dos fatos e dos constantes maus-tratos por parte do poder público.

Muito poucos, porém, acreditam no governo Temer. Mais especificamente, 5% das pessoas consultadas nas pesquisas de opinião. Pouco? Muito menos ― 1% ― se dispõe a votar em seu ex-ministro da Fazenda, cujo principal ativo é não ter nada a perder a não ser um bocado de dinheiro, pois foi aceito candidato do MDB por financiar a própria candidatura e liberar o dinheiro do fundo partidário para os correligionários. Michel Temer afirmou que os emedebistas ficam obrigados a se engajar na campanha de Meirelles, sob o risco de punição. De quem? De Temer, que não dispõe de nenhuma munição.

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sábado, 11 de novembro de 2023

QUEM FOI QUE INVENTOU O BRASIL... (FINAL)

 
Reconheça-se o esforço federal no reforço da vigilância nos portos, aeroportos e fronteiras terrestres para inibir a entrada e o trânsito de drogas no país. Providências são bem-vindas, embora na atual conjuntura sejam insuficientes e, por isso, cercadas de desconfiança sobre sua eficácia. 
Com a decretação da Garantia de Lei e da Ordem, o governo simula a existência de uma política para enfrentar a crise de uma segurança pública em colapso. Quem sofre os efeitos no cotidiano, contudo, não tem obrigação de fingir que acredita. O convívio com o Estado desorganizado frente ao crime organizado não permite a benevolência. 
A GLO é uma ação temporária já tentada em moldes diversos e com o mesmo recurso às Forças Armadas duas dezenas de vezes nos últimos 30 anos. De lá para cá, a situação só piorou. E muito. Aos territórios dominados pelo tráfico acrescentaram-se os controlados pelas milícias, notadamente no Rio de Janeiro, onde o poder público foi cooptado pelo crime e infiltrado na política, na polícia e na Justiça. 
A condição é de "metástase", na definição precisa de Raul Jungmann, que viu a coisa de perto quando ocupou tanto a pasta da Segurança Pública quanto o Ministério da Defesa, e essa metástase se espalha pelo país de tal forma que já se configura em emergência nacional a ameaçar a higidez do Estado de Direito. Mas nisso as autoridades não tocam, preferindo fechar os olhos à necessidade de limpeza. 
Os discursos em defesa da democracia feitos pelos representantes dos Poderes não terão credibilidade nem efetividade enquanto na ala dos representados houver cidadãos reféns do terror. A circunstância fere a soberania estatal e subverte a ordem institucional. Não dá mais para suportar.

***

Séculos antes de Leif içar suas velas (vide capítulo anterior), circulavam no Velho Mundo lendas envolvendo grandes terras desconhecidas do outro lado do Atlântico. Na obra Bibliotheca Historica, escrita no século I a.C., o romano Diodorus Siculus conta que o capitão fenício Himilcon singrou o "Oceano Ocidental" por volta de 500 a.C. e chegou a uma "grande terra, fértil e de clima delicioso", e que descoberta foi mantida em segredo para evitar que outros povos explorassem o lugar.
 
Rumores de que um misterioso país do ocidente era uma espécie de paraíso terreno, imagem do Éden descrito na Bíblia, começaram a circular no início da Idade Média. Entre os celtas da Irlanda, a terra encantada ganhou o nome de Hy Brazil — lembrando que o nome dado posteriormente a Pindorama deriva do termo fenício "barzil" — que significava "ferro" — ou do celta "bress" — raiz da palavra inglesa bless, que significa abençoar —, nada tendo a ver, portanto, com a madeira "da cor da brasa" que abundava no litoral do Nordeste e de cuja casca os portugueses extraíam a tinta vermelha usada para tingir as vestes mais luxuosas de Lisboa.
 
Um descobridor alternativo das Américas pode ter sido um religioso celta em busca do paraíso terrestre: A Navegação de São Brandão, escrita na Irlanda por volta do ano 900, conta a história de um monge irlandês que em 556 teria partido pelas águas do Atlântico em um currach (pequeno barco de madeira, coberto de peles e usado por pescadores). Reza a lenda que São Brandão, com uma pequena tripulação de monges-marinheiros, encontrou a fabulosa terra de Hy Brazil, "cheia de bosques e grandes rios recheados de peixes", e voltou à Irlanda para contar a história.
 
Inobstante a existência de provas irrefutáveis de que fenícios ou celtas tenham estado no Novo Mundo, as chances são consideráveis. A corrente Sul-Equatorial (a mesma que pode ter trazido os chineses ao Brasil) seria o caminho mais provável para exploradores antigos, que, inclusive, dispunham de navios capazes de carregar mais mantimentos que as naus e caravelas portuguesas. Considerando que eles navegaram pela costa da África até o século IV a.C., se um de seus barcos que tivesse entrado por acaso na corrente Sul-Equatorial seria levado diretamente para as praias de Pernambuco. E o mesmo caminho pode ter sido seguido por celtas, romanos e árabes. 
 
Em Historia General de las Indias e de las Tierras del Mar Oceano, escrito em 1535, o espanhol Gonçalo Fernandes de Oviedo assim descreve o espírito de sua época: "E Deus quis que o Novo Mundo fosse descoberto pelos reis cristãos e seus vassalos, e que eles aceitassem alegremente o trabalho de converter e conquistar os idólatras. Bendito seja o Senhor!". Eram tempos em que os espanhóis invadiam e dominavam as terras descobertas por Colombo "para maior Glória de Deus", e foram os próprios conquistadores que começaram a transformar sua aventura em história: Oviedo, um fidalgo que veio às Américas para colonizar, foi o primeiro "cronista de Índias" da coroa espanhola — ou seja, o historiador oficial encarregado de justificar e glorificar a conquista. A "descoberta" foi descrita como uma vontade divina, e os índios, como infiéis sem civilização que, a exemplo dos negros africanos, deviam se converter ou virar escravos.
 
Cronistas da época também esculpiram a versão de que nenhum outro "povo civilizado" alcançara o Novo Mundo antes dos ibéricos — já que o dono é quem chegou primeiro, e a ele cabe o direito de ficar rico com isso. O mesmo raciocínio foi adotado dois séculos depois pelos colonizadores ingleses da Austrália: embora a ilha já tivesse sido avistada pelos portugueses em 1522 e pelos holandeses em 1614 — e talvez pelos chineses bem antes disso, até porque, de todos os possíveis descobridores da Oceania, só eles vestiam "longas túnicas", como os misteriosos visitantes das lendas aborígenes e maoris —, o "descobridor oficial" foi o britânico James Cook, que tomou posse da terra em nome da Coroa inglesa(vide capítulos anteriores).
 
No Brasil, a transformação do apagado Cabral em herói só ocorreu no século XIX. Até então, livros de história mal falavam nele. Em Portugal, também era pouco lembrado: a casa que pertencera a sua família, em Santarém, ficou abandonada por séculos e chegou a virar um prostíbulo. Colombo também permaneceu nas sombras por séculos — e só foi reabilitado em 1866, quando americanos de origem latina criaram o Columbus Day, visando destacar seu na colonização da América numa época em que imigrantes latinos eram desprezados pela elite anglo-saxã. Com o tempo, a celebração da "descoberta" foi exportada para a América Central e do Sul pelos "vencedores" europeus, brancos e cristãos. 
 
Observação: Se a história tivesse sido escrita pelos perdedores, esses relatos certamente adquiririam um tom apocalíptico. No México e no Peru, sacerdotes indígenas decretavam que seus deuses nativos estavam mortos e anunciavam o fim da civilização. O que os "descobertos" pensavam sobre a tal Idade dos Descobrimentos pode ser resumido por um único verso de um poema escrito no México na aurora do Novo Mundo: "Oh meus filhos, em que tempos detestáveis vocês foram nascer!"
 
Discutir se os primeiros a chegar no Novo Mundo eram chineses, nórdicos ou os espanhóis guarda um certo equívoco histórico. Até porque as Américas já haviam sido descobertas pelo menos 15 mil anos antes, e a Oceania, cerca de 46 mil! Quando os ancestrais dos portugueses ainda viviam na Pré-História, os primeiros ancestrais daqueles que os ingleses batizaram de aborígenes chegaram à Oceania caminhando por terra entre as ilhas do Pacífico e o litoral da Ásia. Em 1999, o arqueólogo brasileiro Walter Neves examinou um crânio feminino encontrado em Minas Gerais e descobriu feições aborígenes. O fóssil foi batizado de Luzia e data de 12 mil anos atrás. 
 
Os tataravôs de Luzia devem ter chegado à América vindos do Sudeste Asiático. Já os ancestrais dos nossos tupiniquins, dos astecas mexicanos e dos apaches dos EUA só começaram a povoar o Novo Mundo no século X a. C., vindos da Sibéria pelo Estreito de Bering. Como o interior da América do Norte estava congelado naquela época, os "prototupis" navegaram até a América Central e, a partir de lá, desbravaram o interior, chegando até os confins da Terra do Fogo. 
 
Em face do exposto, o Brasil e as Américas foram descobertos várias vezes ao longo dos séculos.
 
Com Superinteressante

terça-feira, 30 de abril de 2019

O BRASIL NÃO É PARA PRINCIPIANTES



A frase que intitula esta postagem é atribuída ao saudoso maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim — brasileiro até no nome —, mas eu vou mais além: governar este país é para poucos, e governá-lo bem, então, para muito poucos. Se Bolsonaro se enquadra nesta seleta confraria, bem, prefiro deixar o leitor tirar suas próprias conclusões. Vamos aos fatos.

Dentre outras coisa, o 38.º presidente do Brasil já nos deu a saber que não nasceu para ser presidente, mas para ser militar, embora tenha passado menos anos no Exército do que na política, para a qual entrou como vereador e se elegeu deputado federal sete vezes consecutivas. Ao longo de quase 30 anos de vida parlamentar, ele apresentou 172 projetos, relatou 73 e aprovou apenas dois, mas isso não vem ao caso. Na eleição de 2014, ao ver a calamidade em forma de gente derrotar o tucano corrupto, Bolsonaro resolveu disputar a Presidência — antes disso ele havia colocado seu nome à disposição do PP para concorrer com “a cara da direita”, mas foi ignorado pela própria legenda, que apoiou a campanha de Dilma. Durante a convenção partidária, lançou seu ultimato: “Ou o PP sai da latrina ou afunda de vez”. Graças à Lava-Jato, o PP afundou de vez; graças a sua pregação antipetista, o hoje presidente se reelegeu como deputado mais votado do Rio de Janeiro, saltando de 120,6 mil votos em 2010 para 464,5 mil em 2014.

No final de 2014, o hoje presidente rodou o país em carreatas, estampou camisetas e adesivos, posou para “selfies” com eleitores e ganhou um público jovem e ligado nas redes sociais — os “bolsomínions”, que são uma espécie de militantes petistas com o sinal político trocado. E o resto é história recente: com a população dividida em petistas-lulistas e antipetistas-antilulistas, o candidato de extrema direita obteve 55% dos votos válidos, derrotando a marionete de Lula por uma vantagem de quase 11 milhões de votos — que não vieram somente de bolsomínions, simpatizantes e admiradores, mas também de eleitores que não queriam (e continuam não querendo) ver o Brasil governado por um fantoche controlado remotamente por um presidiário. E isso com uma campanha espartana (que não usou o dinheiro do fundo partidário), feita por uma coligação raquítica e que dispunha de míseros 8 segundos de exposição diária no horário político obrigatório.

De estatista, o deputado-capitão passou a defensor da liberdade de mercado, selou pareceria com o economista liberal Paulo Guedes (seu Posto Ipiranga). Para compor a chapa como vice, convidou o senador Magno Malta, que errou feio ao declinar, pois não conseguiu se reeleger — mesmo com a maior verba partidária da sigla em seu estado, Malta obteve menos da metade dos 1.500 mil votos que esperava. A lista seguiu pelo general Augusto Heleno (que aceitou, mas não obteve sinal verde do PRP), pela advogada Janaína Paschoal (que recusou e acabou se elegendo a deputada estadual mais votada de São Paulo), pelo príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança (que foi desconvidado quando se divulgou que teria sido filmado agredindo um morador de rua), chegando afinal ao general da reserva Hamilton Mourão — aquele que defendeu numa loja maçônica em Brasília, em 2017, a intervenção militar no caso de o Judiciário não conseguir expurgar os corruptos da política nacional (voltaremos ao general mais adiante).

Bolsonaro começou a campanha liderando as pesquisas — atrás somente do ex-presidente presidiário, cuja candidatura nunca passou de uma quimera. Houve um consenso de que o capitão teria atingido o ápice da popularidade e que a tendência natural seria de desidratação, mas o cenário mudou com o atentado em Juiz de Fora, que quase lhe custou a vida. No segundo turno, debilitado por duas cirurgias, permaneceu recluso no condomínio na Barra da Tijuca (onde morava antes de se mudar para Brasília), mas continuou subindo nas pesquisas. Mesmo liberado pelos médicos, preferiu (sabiamente) não participar de debates — algo inédito no segundo turno das eleições presidenciais no Brasil —, e mesmo entrincheirado em casa, com uma bolsa de colostomia presa ao abdome, defendendo-se e atacando através das redes sociais, alcançou a vitória mais improvável da história da democracia tupiniquim.

Para gáudio dos bolsomínions e apreensão dos que ajudaram a eleger o capitão por absoluta falta de opção, Bolsonaro vestiu a faixa e subiu a rampa do Palácio do Planalto sem tirar os pés do palanque. Seus primeiros 100 dias no cargo foram decepcionantes, sobretudo no que tange à reforma previdenciária (indispensável para o país e para a sustentabilidade do atual governo). Com o PT debilitado pela derrota, o presidente, três de seus filhos e alguns ministros de Estado pinçados lá do fundo baú da incompetência vem tomando para si a função da oposição, transformando o Planalto e se entorno numa usina de crises sem capacidade ociosa. O combustível da autossabotagem do governo é o caldeirão ideológico em que ele está mergulhado, no qual múltiplas correntes de direita se engalfinham por hegemonia e pelo controle da administração federal, ou setores dela. Seu lema: "se está ficando bom para todos, alguém precisa estragar algo".

O “caso Queiroz” é um bom exemplo — que ainda não produziu efeitos ainda mais deletérios porque novos fatos vêm se sobrepondo dia sim, outro também. Outro é a demissão de Gustavo Bebianno — o grande articulador da campanha do capitão — da secretaria-geral da Presidência, cuja permanência no governo se tornou insustentável depois de ter sido chamado publicamente de mentiroso pelo filho zero dois. Outro, ainda, remete ao “laranjal do PSL”, e haveria muitos mais, sem mencionar as estultices de um presidente que parece escolher os momentos mais impróprios para dizer o que não deve (haja vista a estúpida, despropositada e escandalosa queda de braço com o presidente da Câmara, que dificultou ainda mais a tramitação da PEC da Previdência).

Abril se despede e maio começa com um feriado prolongado no Congresso Nacional e um céu carrancudo, toldado pelas nuvens da indefinição. E as ingerências palacianas, como a que suspendeu o reajuste do preço do diesel a pretexto de evitar uma nova greve de caminhoneiros, e, mais recentemente, uma campanha publicitária do Banco do Brasil, não tem ajudado em nada, antes pelo contrário: há quem especule se não estaríamos numa situação melhor se o vice assumisse o comando desta nau de insensatos — o que não seria novidade, haja vista os governos de José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer, mas seria a ironia das ironias, na medida em que muita gente se preocupava com a possibilidade de a vitória do capitão ressuscitar a ditadura militar (aquela que hoje sabemos nunca ter existido no Brasil). Igualmente curioso é o fato de o presidente ter recheado seu ministério de generais, e estes serem os ministros que menos têm dado motivos para preocupação. Coisas do Brasil.

Para muitos analistas, a incompatibilidade entre Bolsonaro e o cargo de presidente, com combinada com a atuação deletéria de sua prole, responde pelo fiasco do governo em seus primeiros 100 dias. Sobre a crise da vez — que envolve o general Mourão e Carlos Bolsonaro (sempre ele, embora não somente ele) —, há que ter em conta que ministros podem ser exonerados, bastando para isso uma simples publicação no diário oficial, mas nem filhos nem vice-presidentes são passíveis de demissão

Talvez por isso o capitão e o general tentam passar a impressão de que vivem um casamento sólido, visitado apenas por desavenças ocasionais e amenas, próprias das uniões estáveis e felizes. “Esse casamento é até 2022, no mínimo”, disse Bolsonaro em café da manhã com a imprensa na quinta-feira 25, no Palácio do Planalto. “Continuamos dormindo na mesma cama. Só tem briga para saber quem vai arrumar a cozinha”, divertiu-se Bolsonaro. “Ou cortar a grama”, emendou Mourão. Por trás das alegres metáforas matrimoniais, porém, a realidade que se esconde nos bastidores mostra que, das crises políticas que o governo enfrentou até aqui, a mais grave é esta, com hostilidades entre o presidente e o vice, ainda que amenizadas em público, se mostram em franca ebulição no âmbito privado.

Para além de zero dois, o pivô de mais essa controvérsia é o autodeclarado “intelectual” Olavo de Carvalho, ex-astrólogo, esotérico e ultraconservador famoso não só pelas teorias delirantes que oferece em um curso virtual de filosofia, mas por ser uma espécie de guru do clã Bolsonaro e de eminência parda neste governo. Dentre outros prodígios, o "professor" foi responsável pela indicação dos ministros Eduardo Araújo, das Relações Exteriores (que “balança mas não cai”) e Ricardo Vélez, da Educação (que felizmente já caiu). É certo que, pela essência da pregação e pelo histrionismo do pregador, o guru de botequim e seus apóstolos (olavetes) mas cedo ou mais tarde voltarão para o ostracismo com certas curiosidades folclóricas de onde vieram. Mas as rusgas entre o presidente e o vice podem ensejar situações delicadas e produzir efeitos nefastos, sobretudo num governo instável, incerto, que claudica com sérias dificuldades.

As divergências entre zero dois e o vice vieram à tona quando Carluxo postou um vídeo na conta do pai no YouTube — pois é, a versão bolsonariana do “menino de ouro” de Lula é fiel depositário das senhas do papai e de outros integrantes do clã —, onde o guru araque desfia críticas impiedosas aos militares, mas que tem como alvo o general Mourão, a quem o proselitista já chamou de “adolescente desqualificado”. Bolsonaro pediu que o vídeo fosse retirado do ar, mas aí o estrago já estava feito: tinha sido aberta a temporada de ataques ao vice-presidente. 

Na saraivada de tuítes que se seguiu ao episódio, Mourão foi acusado de se opor às propostas do presidente, de se aliar a adversários, de se aproximar de empresários importantes, de bajular a mídia, de se apresentar como sensato e transigente — tudo isso, segundo zero dois, planejado para se viabilizar como alternativa de poder. Para piorar, a exemplo do que se deu no episódio Bebianno, o presidente endossa as críticas públicas que o filho tem feito ao general. Ele não concorda com tudo, mas acha que seu rebento está mirando no alvo certo.

Desde a postagem do vídeo, Mourão começou a desconfiar de que os ataques tinham o aval do presidente. Contrariado, disse que, se aquilo continuasse, não descartava a saída extrema de renunciar. No governo, afirmou o general, tudo o que tem feito é tentar ajudar o presidente, e não o contrário. Mas Bolsonaro parece estar convencido do oposto. 

Na terça-feira 23, durante a reunião do Conselho de Governo, alguém elogiou o presidente e declarou que ele vencera sozinho uma eleição difícil, sem a ajuda dos políticos. “Não, teve o Mourão comigo”, ironizou Bolsonaro. Semanas atrás, irritado com algo que não deixou muito claro aos interlocutores, o presidente voltou a censurar o vice: “O negócio é o seguinte: o Mourão é general lá no Exército. Aqui quem manda sou eu. Eu sou o presidente”. E tampouco freou os filhos. Ao contrário, Carluxo, depois do vídeo de Olavo de Carvalho, intensificou os ataques. Eduardo também entrou na roda, declarando que o Mourão enseja a desconfiança de que poderia almejar um cargo mais alto da República. “No começo eu ouvia esse papo e achava besteira. Agora, já não sei mais”, afirmou o pimpolho de número 3.

Em um governo tão sectário na política e na ideologia, o amplo leque de ações do vice-presidente soa como provocação — ou, o que é pior, como conspiração. E os petardos que mantêm o fogo alto costumam ser disparados por assessores que, às vezes mais realistas que o rei, apostam no confronto. Tanto que foi zero dois quem publicou o vídeo na conta do pai, e foi o coronel Itamar, que cuida da rede social do vice, quem curtiu um comentário da jornalista Rachel Sheherazade, do SBT, que enfureceu Carluxo.

Observação: Na postagem do último dia 22, eu comentei que o vice-líder do governo na Câmara, por influência do guru de meia pataca, apresentou um pedido de impeachment contra o vice-presidente da República, alegando “conduta indecorosa, desonrosa e indigna” e “conspiração para conseguir o cargo de Bolsonaro”. Um dos argumentos sustentados pelo congressista patarateiro é um like de Mourão na publicação em que a jornalista Rachel Sheherazade dirigiu elogios ao vice-presidente e críticas ao titular. O general classificou como “bobagem” o pedido de impeachment e afirmou que "se prosperar, ele volta para a praia". Quanto ao dublê de pensador e astrólogo, talvez fosse melhor ele voltar a fazer mapa astral, chupar seu cachimbo lá em Richmond, na Virgínia, e palpitar menos no governo tupiniquim. Todo mundo sairia ganhando.

Se Carlos Bolsonaro fosse mulher, teríamos um caso clássico de Complexo de Édipo. No afã de proteger o papai, o filhote-pitbull extrapola, exorbita e ultrapassa todos os limites, começando pelo do bom senso. Sua cisma com Mourão começou no ano passado, depois do atentado contra Bolsonaro, quando insinuou que a morte do pai interessaria ao general. De lá para cá, vire e mexe ele volta à carga.

No domingo de Páscoa, zero dois postou um vídeo em que o guru do clã ataca os militares; no dia seguinte, Mourão ironizou as críticas e disse que Olavo deveria focar o que entende — astrologia. Na sequência, o pimpolho mostrou que o general curtiu um post da jornalista que classificou o presidente de “vinagre” e o vice de “vinho”. Depois postou o convite de uma palestra nos Estados Unidos para a qual o Mourão foi convidado e insinuou que o general foi chamado com a missão de falar mal do governo; em outro post, escarneceu de uma fala de Mourão sobre a crise na Venezuela (o general disse que a população do país tinha de estar desarmada para evitar uma guerra civil — “uma pérola!”, ironizou zero dois). Na sequência, compartilhou um vídeo que fala de uma suposta articulação política do PRTB, partido de Mourão, para ter independência do governo, e, poucas horas depois, uma entrevista em que Mourão diz que não iria comentar a decisão da Justiça de reduzir a pena de Lula, e um comentário do vice criticando o processo de “despetização” promovido no governo pelo ministro Onyx Lorenzoni. No mesmo dia, criticado pela ofensiva, zero dois escreveu candidamente que não se trata de atacar o general, mas apenas de estabelecer os fatos. E por aí segue a procissão.

No café da manhã da última quinta-feira, presidente e vice sentaram-se lado a lado, em cena de harmonia. Fizeram questão de dizer que Carlos tem o direito de expressar sua opinião. Mourão chegou a comentar que o fato de Carlos ser filho do presidente não o obriga a ficar “de bico calado”. Mas é uma ingenuidade achar que a crítica de zero dois seja comparável à de qualquer político, ainda mais quando o dito-cujo teve papel fundamental na campanha e exerce influência indiscutível sobre o papai presidente.

Conflitos entre titular e vice permeiam a história desta república desde as mais priscas eras. O primeiro presidente do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca, desconfiava de Floriano Peixoto, que assumiria seu lugar nove meses depois da posse. Café Filho conspirava contra Getúlio Vargas. João Goulart não dava trégua a Jânio Quadros. Na redemocratização, Itamar Franco voltou-se contra Collor e Dilma, vejam só, acreditava que Michel Temer era o vice mais discreto e servil com que um presidente poderia contar — e deu no que deu. 

Para evitar novas crises, há que lavar a roupa suja em casa. A nação agradece.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

BOLSONARO-2022, A CANETA E O FI-LO PORQUE QUI-LO



Diz um velho ditado que “de médico e de louco todos nós temos um pouco”. A Bolsonaro, sobra-lhe de louco o que lhe falta de médico — embora ele não rasgue dinheiro nem coma merda, como se espera de qualquer napoleão de hospício que se preze.

Como chefe do Executivo (legítima e democraticamente eleito, como adorava salientar a militância petista durante o impeachment de Dilma), Bolsonaro é “o dono da caneta”, como ele próprio se refere ao poder de nomear e demitir quem bem entender, sem ter de dar satisfações a ninguém. Mas esse poder é relativo, até porque todo mundo responde a alguém.

O presidente da República, na condição de servidor público — do mais alto escalão, é verdade, mas ainda assim um servidor público —, deve servir ao povo (e não se servir do povo, mas isso é outra conversa) e ao povo dar satisfações de seus atos. Mas Bolsonaro acha que governar é jogar para a plateia, manter a peteca no ar até que chegue a hora de se reeleger. Por isso, em vez de governar para o povo e pelo povo, busca agradar os bolsomínions, ou por outra, manter sua tribo mobilizada, em pé-de-guerra. 

Observação: Para quem chegou de Marte no último voo, chamamos bolsomínions aos apoiadores fanáticos do “Mito”, que agem como a militância petista, mas com a polaridade invertida. Uma caterva de desmiolados que aspiram cada peido de seu ídolo e juram pela pastora Damares e pelo Bispo Macedo que o aroma é de Chanel nº 5. Um de bando de olavistas terraplanistas e criacionistas que bate palmas para maluco dançar — e o maluco beleza dança conforme a música tocada nas redes sociais por essa súcia, e nessa súcia aposta sua reeleição.  

A despeito do risco de virar clichê, ouso repetir a arenga mais uma vez: Bolsonaro deve sua vitória não só a suas macacas de auditório, mas também aos milhões de brasileiros que teriam votado em Lúcifer em pessoa para impedir a volta do PT, travestido num patético bonifrate controlado desde Curitiba por um condenado.

A poderosa Bic presidencial escreve só para os bolsomínions — aliás, usar uma esferográfica de R$ 2 é de um populismo de dar inveja ao histriônico Jânio Quadros, que aparecia nos comícios descabelado, com a barba por fazer, o paletó amarfanhado e cheio de caspa, mordendo sanduíches de mortadela que tirava do bolso (o perfeito "homem do povo" na visão de um populista). Como não tinha um programa, Jânio impressionava a audiência com discursos vazados em linguagem pernóstica, escandindo as sílabas para realçar o português castiço — que formava frases quase tão desconexas quanto as de Dilma, a insuperável. E a plebe ignara aplaudia, já que não entendia patavina.

Não estou sugerindo que, a exemplo de JânioBolsonaro vá renunciar. Isso é tão provável quanto eu ser eleito Papa. Por outro lado, é impossível não traçar um paralelo entre o comportamento instável no nosso atual mandatário e os desvarios do finado homem da vassoura (símbolo usado por Jânio para enfatizar sua promessa de varrer a corrupção). Em termos de insanidade, porém, respeitadas as diferenças temporais, enquanto Jânio ia com a farinha, Bolsonaro volta com o fubá.

O capitão é mestre em escolher o pior momento para dizer ou fazer a coisa errada e doutor em tomar a decisão menos adequada. A antepenúltima foi a quase demissão de Mandetta — no momento em que a Covid-19 avança a passos de gigante. As penúltimas (porque certamente outras virão), aconteceram na quinta-feira, 9, e no sábado, 11.

Na primeira, o presidente resolveu comer um sonho numa padaria (e aproveitou o embalo para abraçar e tirar fotos com funcionários). O filho e deputado Eduardo Bolsonaro e o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, notório puxa-saco do capitão, o acompanharam nessa aventura. Nos vídeos que circularam nas redes sociais dava para ouvir vizinhos da padaria gritando: “Vai pra casa”.

Na segunda, numa escapada até a cidade goiana de Águas Lindas (a meia hora de Brasília), Bolsonaro visitou as obras de um hospital de campanha que oferecerá 200 leitos para pacientes com a Covid-19, e tirou sua máscara (a de pano, naturalmente) para saudar com beijos e apertos de mão um grupelho de 50 apoiadores que chamava de traidor o governador do estado (vale lembrar que Ronaldo Caiado rompeu com o presidente no mês passado, quando o chefe do Executivo Federal incentivou as pessoas a voltarem "à normalidade". O general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, e (ele de novo) Tarcísio de Freitas acompanharam o capitão, mas nem Mandetta nem Caiado se aproximaram dos populares. Questionado pela imprensa sobre a atitude do presidente, o ministro reforçou: “as recomendações valem para todos os brasileiros”.

O distanciamento social é um dos principais pontos de divergência entre o presidente e Mandetta, a exemplo do uso da hidroxicloroquina para o tratamento do coronavírus, defendido por Bolsonaro mesmo sem pesquisas conclusivas sobre sua eficácia e possíveis efeitos colaterais. Como diz o ditado, "quem pode mais chora menos". O prego mais saliente é o que leva a martelada.

Sem ter como elevar sua estatura, o presidente rebaixa o teto de seu gabinete. Sem luz própria, tenta apagar as que iluminam seu caminho. O (justificado) receio de que o agravamento da pandemia seja catastrófico para sua tão sonhada reeleição leva-o a cobrar do ministro medidas para amenizar os impactos da crise sanitária na economia. Um pedido (ou ordem, como queiram) compreensível, mas quase impossível de ser atendido.

Se realmente demitir Mandetta, o capitão deveria recrutar São Judas Tadeu, tido como o santo das causas impossíveis, para substituí-lo, e Santo Expedito, o santo das causas urgentes, para assessorá-lo. Também ajudaria se deixasse de lado de lado suas estúpidas disputas ideológicas e governasse o país, pois foi para isso que o elegemos (bom, não exatamente, mas era parte do pacote).

Dependendo do que ocorrer até meados de 2022, nada mais justo que Bolsonaro dispute a reeleição (como fizeram FHC — em cuja primeira gestão essa possibilidade vergonhosa foi incluída na constituição através de uma PEC — e os petralhas Lula e Dilma). Para viabilizá-la, porém, ele precisa deixar de ser o estorvo de seu governo e enfrentar as adversidades sem se deixar governar por elas. Se não abdicar do posto de líder da oposição, seu governo não chegará a 2022.

Se isso lhe for do todo impossível, melhor faria se pedisse o boné e se recolhesse a sua mediocridade. Como já dizia o saudoso maestro Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim — brasileiro até no nome — o Brasil não é para principiantes.

Volto amanhã para falar mais um pouco sobre Jânio, sua renúncia e outras questões correlatas.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

SE FOR POR FALTA DE ADEUS, "TCHAU, QUERIDO"

 


O ex-decano Marco Aurélio Mello gostava parafrasear Platão, repetindo ad nauseam que "vivemos tempos estranhos". Mas o fato é que o Brasil é um país estranho.

Em apenas uma semana, após assinar um patético documento intitulado pomposamente como "Declaração à Nação" pelo respectivo redator — o ex-presidente Michel Temer —, o presidente desta banânia passou de conspirador-mor da República a respeitador das instituições e da Constituição.

A súbita conversão ocorreu logo na introdução, onde o vampiro do Jaburu anota que "o país se encontra dividido entre instituições", o que, convenhamos, não é fácil entender. Mas já dizia o saudoso maestro Tom Jobim, brasileiro até no nome (Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim), que o Brasil não é para amadores.

Se a introdução é pouco feliz, o documento fica pior quando expõe os dez pontos da inútil declaração. Diz que "respeita os outros dois Poderes e que deve haver harmonia entre eles" — estranho que um presidente da República, que jurou respeitar a Constituição, tenha de reafirmar esse compromisso. Como se já não bastasse esse mau sinal, o documento afirma em seguida que "boa parte dessas divergências decorrem de conflitos de entendimento acerca de decisões adotadas pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das fake news."

Só que a epístola não aponta as tais "divergências", o que desautoriza qualificar os ataques criminosos contra o Supremo e as injúrias, calúnias e ameaças de morte assacadas contra o Alexandre de Moraes como simplesmente uma disputa entre intérpretes da Constituição.

Continuando no terreno da mediocridade analítica da complexa relação entre os Poderes, o miliciano de Rio das Pedras diz — em tom de ameaça — que ninguém tem direito de "esticar a corda", e relaciona tal reflexão — digna de um beócio — com a economia e a vida dos brasileiros. E conclui afirmando que suas "palavras contundentes" foram ditas no calor do momento. Mas quais palavras? Quais momentos?

O fecho da frase é fantástico, digno do momento político que vivemos: os ataques à Constituição, as ameaças de golpe de Estado, o estímulo à violência como método político forma transformados, como num passe de mágica, em "embates que sempre visaram ao bem comum."

Não cumprir decisão judicial, como o mito dos otários proclamou que faria em relação às decisões do ministro Alexandre de Moraes, virou "naturais divergências" na novilingua bolsonarista. E o epíteto "canalha", como o capetão se referiu ao magistrado, foi reinterpretado: na versão epistolar, Moraes ganha os atributos de jurista e professor.

Não fosse trágico, seria cômico o jurista de Rio das Pedras dissertar sobre o artigo 5º da Constituição — que nunca leu, registre-se — e lançar luzes milicianas à sua mui particular interpretação da Carta Magna, dando-nos a saber que ele respeita — ufa, mais uma vez — as instituições e — como um Péricles do submundo carioca —, assevera que na democracia os três Poderes trabalham em favor do povo.

Concluiu a "Declaração à Nação" com duas frases que o Doutor Pangloss, com seu inveterado otimismo, diria que são enigmáticas, mas podem ser definidas como o produto de um redator medíocre que desconhece a Constituição, o pensamento lógico e a língua de Camões.

Afirmou o signatário da missiva que sempre esteve "disposto a manter diálogo permanente com os demais Poderes pela manutenção da harmonia e independência entre eles." Manter diálogo é o mínimo que se espera de quem diz respeitar (e jurou!) a Constituição. Agora não é ele — que personifica o Executivo federal — quem vai manter a harmonia e independência entre os Poderes!

Bolsonaro — ou o tosco redator — quer reescrever o caput do artigo 102 da CF (Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição"). O "último mandamento", o décimo, Bolsonaro agradece o apoio do povo brasileiro (?) e diz: "conduzo os destinos do nosso Brasil."

A redação é ruim, é verdade. Porém, é possível compreender que é ele quem conduz o nosso destino! Agora temos o condottiere de Rio das Pedras. Para piorar, cita, no final o lema integralista que, imagina-se, deixaria envergonhado Plínio Salgado — que ao menos sabia escrever, e bem.

O patético documento foi recebido como se fosse um discurso de Winston Churchill. Sinal da decadência política do Brasil.

Bolsonaro precisava ganhar tempo para continuar solapando as instituições. Se León Trotsky falava em revolução permanente, o "mito" dos bolsomínions age para produzir o caos permanente. E a crise institucional vai se agravar para além do desastre econômico, social e sanitário.

Em Os Bruzundangas, Lima Barreto desenhou um país muito semelhante ao Brasil contemporâneo. Inclusive, a Constituição estabelecia que para ser elegível o Presidente "devia unicamente saber ler e escrever; que nunca tivesse mostrado ou procurado mostrar que tinha alguma inteligência; que não tivesse vontade própria; que fosse, enfim, de uma mediocridade total." Por mais estranho que pareça, Jair Bolsonaro consegue ser pior.

Em meio a uma contagem regressiva para o próximo surto de Bolsonarite, o TSE disparou no rumo do gabinete presidencial uma bala perdida que desafia o armistício. Por decisão do corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Luis Felipe Salomão, a Corte vai apurar se houve propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder nas manifestações promovidas por Bolsonaro no 7 de Setembro.

A providência foi tomada no âmbito do inquérito administrativo sobre a disseminação de mentiras que associam as urnas eletrônicas a fraudes inexistentes e ameaças ao processo eleitoral de 2022. Esse inquérito foi aberto no mês passado, por decisão unânime dos sete ministros que compõem o plenário do TSE.

O TSE coleciona dados para instruir uma eventual decretação da inelegibilidade de Bolsonaro, o que impediria o presidente de disputar a reeleição em 2022. Esse tipo de procedimento não depende de denúncia da Procuradoria-Geral. Ou seja, está fora do alcance da blindagem de Augusto Aras.

Deseja-se apurar a origem das verbas que financiaram os atos estrelados pelo mandatário no Dia da Independência, incluindo o custo do transporte e diárias de manifestantes e a confecção de material em defesa do voto impresso. Além dos indícios de abuso de poder econômico, os atos podem ser enquadrados como campanha fora de época, o que é crime eleitoral.

O custeio das manifestações será apurado também em inquérito aberto no STF sobre agressões à Corte e seus ministros por bolsonaristas que se envolveram na operação que subverteu os festejos do 7 de Setembro. O relator desse inquérito é Alexandre de Moraes, que Bolsonaro, em sua versão moderada, trata como um "ex-canalha".

Já passou da hora de pôr um paradeiro nesse descalabro. Como dizia Giovanni Improtta (protagonizado pelo saudoso José Wilker), "o tempo ruge e a Sapucaí é grande".

sexta-feira, 21 de junho de 2019

OS RATOS PONDO A CULPA NO QUEIJO — DURANTE QUASE NOVE HORAS UM GRUPO DE PARLAMENTARES COMPOSTO EM GRANDE PARTE POR VERDADEIROS ESPECIALISTAS NA ARTE DA CORRUPÇÃO EXIGEM QUE O EX-JUIZ SÉRGIO MORO DEFENDA SUA LISURA



A inquisição a que o Sérgio Moro foi submetido na última quarta-feira, na CCJ do Senado, deve se repetir na Câmara na próxima semana. Como era esperado, desafetos do ministro vêm se aproveitando da situação — no STF, no Congresso e até mesmo no interior do governo — para instigá-lo politicamente e, ao mesmo tempo, pugnar por providências no âmbito dessas instituições. Criminalistas que defendem os denunciados pelo MPF de Curitiba e apenados pelo então juiz da 13ª Vara Federal do Paraná exploram os diálogos para tentar anular condenações e processos pendentes, parecendo não se lembrar, muito convenientemente, de que o material divulgado pelo site esquerdista The Intercept foi obtido de forma criminosa e vem sendo divulgado a conta-gotas de maneira tendenciosa.

Imagina-se — porque ainda não há provas concretas — que o PT, a esquerda e até parlamentares investigados, denunciados e réus na Lava-Jato estejam por traz desse “escândalo” sensacionalista. Por uma série de motivos que já detalhei em outras postagens, esse material, pela forma como foi obtido e publicado, deveria ter como destino a lata do lixo, mas continua repercutindo, dando ânimo à oposição e robustecendo a narrativa que trata Lula como preso político e usa os “inocentes úteis” como massa de manobra para promover manifestações de rua convocadas, supostamente, em defesa da Educação, contra a reforma da Previdência ou por uma greve geral.

A comprovação pelas investigações da PF de que a captação ilegal dos diálogos é apenas parte de uma ação coordenada contra a Lava-Jato, atingindo membros do Judiciário em diversos graus, deu nova conotação política ao episódio. Silvio Meira, um dos maiores especialistas em tecnologia da informação e professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco, diz que “ninguém fez isso sozinho, não aconteceu por acaso, tem um desenho por trás. Havia gente que estava explicitamente dedicada, gastando imaginação, competência técnica, tempo e dinheiro para chegar a essa informação”. Ensina o especialista que o Telegram, que passou a ser muito usado no Brasil depois que o WhatsApp ficou fora do ar por questões judiciais, pode ser seguro quando as mensagens são criptografadas, mas para isso é preciso que o usuário habilite a encriptação no seu terminal, ou elas seguem abertas e podem ser lidas por pessoas não autorizadas. 

Abel Gomes, desembargador do TRF-2 que julga os processos da Lava-Jato no Rio, colocou o dedo na ferida: “Por que os hackers têm mirado apenas autoridades que deram decisões desfavoráveis aos investigados da Lava-Jato?” Também a juíza substituta Gabriela Hardt, que respondeu pela 13ª Vara Federal do Paraná no período entre a exoneração de Moro e a nomeação do juiz federal Luiz Antonio Bonat, foi hackeada e denunciou que essa manobra ilegal contra membros do Judiciário é um atentado à segurança do Estado brasileiro.

A origem do aplicativo também é um mistério. Telegram é o nome da empresa russa criada pelos irmãos Durov — que também criaram o Facebook russo VKontakte. Numa operação um tanto misteriosa, essa empresa foi vendida a outro grupo digital russo, após o que os irmãos deixaram o país e foram para Berlim, de onde também saíram reclamando que as autoridades alemãs não deram visto de trabalho para o seu time — time que hoje ninguém sabe exatamente onde está (a empresa é tocada a partir de Dubai, os demais funcionários estariam espalhados pelo mundo e o paradeiro da infraestrutura da companhia é incerto e não sabido).

Ainda na avaliação de Meira, essa crise chama a atenção para um problema brasileiro, qual seja o fato de que as autoridades não disporem de um sistema de troca de mensagens ou telefone protegido contra ataques de cibercriminosos. O uso do Twitter é um hábito que Bolsonaro copiou de seu ídolo, Donald Trump, mas o presidente norte-americano só usa o Twitter oficial quando trata de assuntos do governo — até porque o uso de meios particulares já deu muita dor de cabeça a Hillary Clinton, que, quando secretária de Estado na gestão de Obama, usava seu endereço eletrônico privado mesmo para assuntos governamentais, quando deveria usar o email oficial (@state.gov). Mas os EUA são os EUA e o Brasil é o Brasil. Nesta republiqueta de bananas, o ataque em massa a diversos membros do MPF e do Judiciário, notadamente no Paraná e no Rio, sugere uma monumental conspiração com o objetivo de acabar com a Lava-Jato — operação que, nas palavras do ministro Edson Fachiné uma realidade que mudou a estrutura do combate à corrupção no Brasil.

No Jovem Pan Morning Show desta quinta-feira, Caio Coppola ponderou que um Congresso com 3% de aprovação popular, infestado de ratos, vermes e parasitas, não tem moral para atacar a conduta de Sérgio Moro. O que se tem, segundo ele, é um homem honesto se explicando por crimes que não cometeu perante um conjunto de especialistas na arte da corrupção. Caio sugere que Moro se dirija aos parlamentares — que, gostemos ou não, foram eleitos e, portanto, representam os idiotas que votaram neles — pelos nomes de código que os identificavam nas planilhas de propina do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, e lembra que, nos cinco minutos que teve para questionar o ministro durante a sessão na CCJ, o senador Oriovisto Guimarães, do Podemos, estabeleceu uma comparação entre ética e legalidade.

O pensamento ético, segundo o parlamentar, avalia as ações humanas na perspectiva de “bem” e “mal”; no pensamento legal, a clivagem é entre dentro e fora da lei. Para ele, o pensamento ético é permeado por questionamentos e não é composto por certezas absolutas, que são mais filhas da fé do que da razão. Em sua análise, a ética está “um degrau acima da lei” e, para ilustrar essa tese, cita a possibilidade de existirem “canalhas legalistas” e o exemplo da escravidão, que era imoral, embora fosse legal. Disse ainda o senador que o país claramente se divide em dois momentos — antes e depois da Lava-Jato —, e que, além da atuação de juízes, policiais e procuradores, a operação também é fruto da incapacidade do brasileiro em continuar vivendo sob um regime patrimonialista, onde há cumplicidade entre empresários e políticos corruptos. Por fim, ele citou o jurista Luis Alberto Warat, que separa neutralidade de imparcialidade e diz ser impossível haver neutralidade por parte dos julgadores, e pediu a Moro que respondesse se seus atos seguiram a imparcialidade exigida constitucionalmente.

O ministro ponderou que as partes envolvidas no processo legal são seres humanos que carregam em si valores e princípios “que vão sempre de alguma maneira influenciar na tomada de atos e decisões no curso do processo”. Sobre a imparcialidade — ou seja, a capacidade do magistrado de proferir decisões segundo as leis e provas, independente de que sejam as partes —, Moro reafirmou que isso foi mantido na operação Lava-Jato desde o início. Em sua réplica, o senador disse estar “plenamente convencido da imparcialidade de Sergio Moro”. Para não prolongar demais esta postagem, veja detalhes no vídeo a seguir:


Até semanas atrás, o Telegram era pouco conhecido no Brasil, mas ganhou notoriedade devido a esse furdunço todo. O Intercept, que divulgou as supostas trocas de mensagens envolvendo o ministro, afirma que obteve os diálogos de uma fonte anônima antes de possíveis invasões ilegais. De novo, para não encompridar ainda mais este texto, vou deixar para abordar as diferenças entre o Telegram e o Facebook numa próxima oportunidade.