Quando ouvimos falar em “
esfinge”, logo nos vem à
mente a estátua faraônica (literalmente), com corpo de leão e rosto humano, que espreita há mais 40 séculos as pirâmides de
Quéops,
Quéfren e
Mikerinos,
em
Gizé.
("Gizé" vem do árabe
al-Jizzah e significa
“o vale” ou “o platô”).
Para os propósitos desta abordagem, porém, interessa
dizer que na mitologia grega as esfinges têm pernas de leão, asas de pássaro e
rosto de mulher, e são tidas como traiçoeiras e impiedosas.
A versão que integra o elenco da tragédia
Édipo Rei, do dramaturgo
Sófocles (496-406 a.C.), foi enviada para
Tebas pela deusa
Hera, e propunha a todos que passavam pela estrada que levava a Tebas o seguinte enigma: "
Que criatura tem quatro pés de manhã, dois ao meio-dia e três à tarde?"
Quem não soubesse a resposta era prontamente estrangulado — e muitos o foram,
até que
Édipo decifrou
a charada: "
É o ser humano! Engatinha quando bebê, anda sobre dois pés quando
adulto e recorre a uma bengala na velhice".
Furiosa, a esfinge se
suicidou, atirando-se de um despenhadeiro.
Édipo ficou mais conhecido entre nós porque o neurologista e psiquiatra
Sigmund Freud batizou de
Complexo de Édipo o conjunto de desejos amorosos e hostis que meninos podem alimentar em relação à própria mãe. Isso porque, na tragédia de Sófocles, nosso herói matou o pai,
Laio, para se casar com a própria mãe,
Jocasta.
A telenovela Mandala, exibida pela Rede Globo em
185 capítulos (entre outubro de 1987 e maio de 1988) foi inspirada na tragédia retrocitada, e tinha como tema a luta do homem contra o próprio destino.
A trama foi ambientada no Rio de Janeiro, e os primeiros 16 capítulos tinham
como pano de fundo a renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, e a
Campanha da Legalidade, organizada para assegurar a posse de João Goulart.
Na sequência, uma estudante de sociologia filiada ao partido comunista chamada
Jocasta (personagem de
Giulia Gam) se apaixona por um colega de
faculdade chamado
Laio (
Taumaturgo Ferreira), que vivia a custas
da mesada do pai e não fazia nada sem antes consultar o guru
Argemiro (
Marco
Antônio Pâmio). Os dois se envolveram, a moça engravidou.
Argemiro
jogou os búzios e previu que o filho de
Laio odiaria o pai e teria uma
relação amorosa com a mãe.
Laio tentou convencer
Jocasta a
abortar, mas não teve sucesso, e com a ajuda do guru urdiu um plano envolvendo a
enfermeira da maternidade, que concordou em raptar a criança e... enfim, basta clicar
aqui
para ler uma breve resumo do desenlace.
No âmbito da Filosofia, o termo
enigma (do vocábulo latino
aenigma, que provém do grego
ainíssesthai de
ainos, que significa "falar com sentidos ocultos")
designa um "
problema impossível de resolver" — não por exceder nossos meios de conhecimento nem
por razões unicamente lógicas, mas por estar mal colocado. Segundo o filósofo
austríaco
Ludwig
Joseph Johann Wittgenstein, o
enigma não
passa de um jogo ou uma ilusão, existindo apenas para os que se deixam
enganar por ele.
Findo este (não tão) breve preâmbulo, a ideia era traçar
um paralelo entre o
Enigma da Esfinge e
Jair Messias Bolsonaro,
que não tem corpo de leão nem cara de mulher, mas desafia mandalas, búzios e
cartas de tarô com sua sociopatia, egolatria e pitadas de
narcisismo e messianismo — que, nunca é demais lembrar,
não
implicam déficit cognitivo; o presidente
sabe
muito bem o que faz e, portanto, pode e deve
ser
responsabilizado por seus atos.
Pensei também em embasar esta matéria com exemplos pontuais,
e para isso revisitei centenas de postagens publicadas desde o primeiro
turno das eleições de 2018, quando a parcela desinformada e descerebrada do
eleitorado descartou o bebê junto com a água da bacia, ou seja, varreu da disputa, juntamente com o bizarro elenco de feira de horrores travestido de postulante à Presidência, duas ou três opções que talvez fizesse mais sentido a gente experimentar.
Depois de considerar o espaço que esse detalhamento ocuparia, quão grande ficaria esta postagem e tão cansativa seria sua leitura, resolvi recomendar a quem interessa possa que faça como eu fiz. Para facilitar a navegação através das quase 5.000 postagens publicadas, recorra ao campo "Arquivos do blog", que fica parte inferior da coluna à direita.
Observação: O despreparo do eleitorado impingiu à parcela pensante da população duas singelas
alternativas para impedir que o patético bonifrate que se prestou ao ridículo
papel de preposto do criminoso de Garanhuns se aboletasse no Palácio do Planalto:
aliar-se aos igualmente patéticos bolsomínions ou engrossar as fileiras dos 42
milhões de brasileiros que anularam o voto, votaram em branco ou se abstiveram
de votar. Não dá para dizer como estaríamos se o resultado tivesse sido outro, mas certamente não teríamos um projeto de psicopata no comando desta Nau de Insensatos.
O que foi dito nos parágrafos anteriores explica a vitória do capitão, mas não seu comportamento
lunático, suas constantes agressões à imprensa, caneladas nos presidentes da
Câmara e do Congresso e boladas nas costas de aliados — que resultaram na substituição, compulsória ou a pedido, de ministros do quilate de
Gustavo
Bebianno,
Floriano
Peixoto,
Santos
Cruz,
Henrique
Mandetta,
Sergio
Moro e
Nelson
Teich,
e na ruptura com os deputados federais
Joice
Hasselmann e
Alexandre
Frota e a deputada estadual
Janaína
Paschoal, entre outros.
Ao longo dos últimos 17 meses,
Bolsonaro abandonou uma a uma suas principais bandeiras de campanha
— como a do
combate à
corrupção e punição dos corruptos,
fossem
eles quem fossem, e a do
repúdio à velha política do toma lá, dá cá.
No primeiro caso, relembro a entrevista concedida pelo capitão à
Bloomberg,
durante o Fórum Econômico Mundial em Davos. Questionado sobre as suspeitas de
rachadinha no gabinete do primogênito na
Alerj (o célebre
Caso Queiroz),
o presidente respondeu,
litteris: "
Se por acaso Flávio errou e isso
ficar provado, eu lamento como pai. Se Flávio errou, ele terá de pagar preço
por essas ações que não podemos aceitar".
Palpiteiros de plantão aplaudiram a retidão do mandatário, mas
eu mantive um pé atrás. No
post
de 24/01/19 eu disse que “
seria bom, só para variar, que não viéssemos a
assistir uma reprise do episódio em que Lula, questionado sobre a
ascensão financeira do primogênito Lulinha, referiu-se ao pimpolho como ‘Ronaldinho dos negócios’”. E foi tiro e queda.
A polarização político-ideológica que o molusco abjeto instituiu
com seu nefando "
nós contra eles" criou legiões de anormais que acreditam naquilo que querem acreditar. Para os petistas,
vale a versão, não o fato, daí a patuleia reverberar narrativas absurdas, sem pé nem
cabeça, construídas sob medida pelos marqueteiros dos partidos para fins
eminentemente proselitistas. Seu fanatismo é tamanho que até hoje essa caterva acredita que
Lula foi
condenado
sem provas e preso injustamente. O que não chega exatamente
a surpreender: se esse bando de pacóvios não consegue achar a própria bunda usando as duas mãos e uma lanterna, tampouco encontrariam provas contra seu amado líder. Nem mesmo se elas saltassem dos autos e lhes mordessem
o nariz.
Por mal dos nossos pecados, os bolsomínions agem
da mesma maneira (ou até pior) que a militância vermelha. No que tange à reunião ministerial de 22 de abril, por exemplo, essas toupeiras não veem absolutamente
nada que sequer sugira a mais remota intenção do "mito" de interferir na PF.
Mas bastaria que tirassem a venda do fanatismo e colocassem os óculos do bom
senso para que concluíssem que se alguém está mentindo nessa história, esse alguém não
é o ex-ministro Sergio Moro.
Observação:
Não sei com certeza o que têm na
cabeça os sectários de Lula e os puxa-sacos do capitão sem luz, mas suspeito que seja uma substância de cor amarronzada, consistência pastosa e
cheiro bastante desagradável. É certo que as coisas nem sempre são o que parecem. Mas é igualmente certo que, às vezes, elas são. Como dizia o próprio Freud, “às vezes um
charuto é só um charuto”.
Da gravação da tal reunião, salta aos olhos que
Bolsonaro confunde governar com guerrear e confirma ad nauseam
sua disposição de “interferir mesmo” quando ações desagradem a ele, à
família e aos amigos. E o louvor ao combate fica patente não só como retórica
política, mas também no sentido literal.
O vídeo desnudou um presidente
conduzindo uma reunião ministerial com sangue nos olhos, explicitamente
temeroso de não concluir o mandato, exortando o povo a “se armar”, a
fim de enfrentar os que ele, Bolsonaro, acusa de pretender implantar uma
“ditadura” no país. No que tange a seus vassalos, disse o general da banda: “Quem for elogiado pela Folha, pelo Globo,
pelo Antagonista, está fora”, deixando claro que a ele não importa a
qualidade do trabalho do auxiliar, mas a disposição de servi-lo de maneira
cega.
Embora não tenha citado nomes, Bolsonaro fez
referências claras ao Congresso e ao Judiciário quando falou, de maneira depreciativa, “esse
pessoal aqui do lado” (da Praça dos Três Poderes), e
ao dizer que falaria “na linha do Weintraub” logo depois de o ministro da deselegância ter dito que. se dependesse dele, “mandava pôr esses vagabundos todos na
cadeia, a começar STF”.
Nem é preciso que o vídeo contenha a tal “bala de prata”, que
justifique o processo de impedimento, para que se veja um presidente violento,
interessado em impor suas convicções pessoais como políticas de governo,
intolerante com o contraditório e bastante indulgente com propostas heterodoxas
na administração pública.
Bolsonaro ficou calado quando o ministro Ricardo
Salles propôs a derrubada de regulamentações “de baciada” enquanto “a
imprensa está ocupada com a Covid-19”, e tampouco se manifestou quando a
ministra que viu Jesus na goiabeira disse que seu gabinete pegaria
pesado quando terminasse a pandemia, ameaçando mesmo “prender governadores e
prefeitos”, devido à aplicação de medidas de isolamento social.
O vídeo pode não ser suficiente para embasar um
impeachment formal (embora existam provas e provas,
como veremos numa próxima postagem, quando tratarmos do “standard de prova”), mas dá e sobra para provocar seu impedimento
moral no ofício de bem governar. O que me leva a encerrar com a seguinte
anedota:
Dois amigos iam pela calçada quando se depararam com uma
“obra canina”.
— Será que é merda? — perguntou um deles.
— Não sei — respondeu o outro. — Mas que parece, parece.
O primeiro se aproximou do troçulho, examinou-o
atentamente e disse:
— Tem jeito de merda.
Tocou levemente o estrabo, levou o dedo ao nariz, fungou
e diagnosticou:
— Tem cheiro de merda.
Ainda em dúvida, lambeu o dedo e só então sentenciou:
— Também tem gosto de merda! Então deve ser merda!
E o outro disse:
— Se é assim, ainda bem que não pisamos.