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terça-feira, 8 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 116ª PARTE

ALGUMAS COISAS SÃO DIFÍCEIS DE ENTENDER, MAS NEM POR ISSO DEIXAM DE SER VERDADEIRAS.  

Como a audiência do blog é rotativa, cabe aqui uma breve contextualização, começando por relembrar que, apesar de toda a evolução da havida nos últimos séculos, a ciência ainda não consegue explicar a natureza do tempo nem acomodar a teoria da relatividade e a mecânica quântica numa mesma equação matemática. 


As equações relativísticas de Einstein dão azo à possibilidade de viajar rumo ao futuro, bastando para isso construir naves capazes de alcançar a velocidade da luz, aproximar-se do horizonte de eventos de um buraco negro (onde o tempo desacelera significativamente) ou entrar num buraco de minhoca e sair em outra galáxia, no presente ou em outro ponto da linha do tempo. No entanto, retornar ao passado esbarra nas leis da física clássica, sem falar que o simples desembarque do viajante do tempo numa época pretérita altera o futuro — como ilustram magistralmente o efeito borboleta e o paradoxo do avô. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria. Mesmo porque o enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte, mas um preceito básico, pré-requisito essencial ao regime democrático — aquele em nome de cuja retomada inscreveram-se as normas que passariam a valer depois de 21 anos de submissão do Legislativo e do Judiciário ao mando do Executivo hipertrofiado — a ditadura.

De lá para cá, o país sofreu e venceu solavancos que testaram a firmeza do desenho institucional de 1988. Mas não está conseguindo resistir à inaptidão da geração subsequente em seguir os passos dos arquitetos da redemocratização.  Em meio a autoritarismos, voluntarismos, populismos, usurpação de funções e agressão a ritos e regras, assistimos a uma deterioração de condutas cuja solução passa longe da culpa do aludido sistema ao qual se pedem reformas, na tentativa de fugir da responsabilidade que é de seus condutores e operadores.

Visando contornar dificuldades num Legislativo interesseiro e arisco, o chefe do Executivo achou por bem se escorar em magistrados permeáveis a alianças no Judiciário, que, alheios às consequências, entraram numa espiral descendente de desmoralização compartilhada. 

A eleição presidencial se dá em ambiente de rejeição e desencanto; o Supremo Tribunal Federal vive um impasse de gravidade inédita e o Congresso não dispõe de lideranças com estatura institucional à altura do desafio. O túnel é escuro e o poço sem fundo. A resposta em outros tempos esteve na política, que perdeu tônus e protagonismo quando decidiu se dedicar primordialmente aos negócios e terceirizar suas funções a juízes com pendores políticos e vocação para santos guerreiros. Queira o bom senso que a saída não esteja em acertos para estancar a sangria com Supremo e com tudo.


Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras. Para o físico Lorenzo Gavassino, combinar a teoria da relatividade geral, a mecânica quântica e a termodinâmica permitiria voltar ao passado sem criar contradições.


Conforme foi dito em outros capítulos desta sequência, uma curva temporal fechada criaria linhas do tempo alternativa a cada decisão tomada pelo viajante, que assim seguiria caminhos diferentes sem alterar o futuro. No entanto, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.


Albert Einstein, Stephen Hawking e vários outros físicos renomados tentaram, sem sucesso, conciliar a física clássica com a mecânica quântica. Ainda assim, não faltam teorias que buscam esse resultado, entre as quais a Teoria de Tudo é uma das mais promissoras. Todavia, antes de detalhar essa e outras teorias afins, lembro que a viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade, embora possa ter implicações estranhas e perigosas para os viajantes — e até para seus familiares. 


O conceito vem sendo explorado em livros, filmes e seriados de ficção científica desde a publicação do romance A Máquina do Tempo por H.G. Wells, em 1895. Mas a pergunta que não quer calar é: será mesmo possível voltar no tempo, e, se for, será mesmo possível alterar o passado? 


Uma das formas mais tradicionais de explorar as consequências da viagem no tempo é através do Paradoxo do Avô, no qual o viajante volta no tempo e mata o próprio avô antes de ele conhecer sua avó, o que impediria o nascimento de um de seus pais e, consequentemente, do próprio viajante, que assim não poderia ter viajado para o passado e matado o avô. Antes de explicar as possíveis soluções do paradoxo e as suas implicações, vale destacar que o viajante precisa matar o avô antes de ele conhecer a avó — se esse encontro não ocorrer, o viajante jamais nascerá.


Como se vê, essas duas premissas são mutuamente excludentes: o avô não pode estar vivo no dia em que conheceu a avó — pois o viajante o matou antes disso —, mas também tem que estar vivo e ter conhecido a avó para o neto ter nascido, voltado ao passado e matado o avô. Mas o avô não pode estar vivo e morto ao mesmo tempo, como o Gato de Schrödinger. 


Para resolver o paradoxo do avô, a solução mais óbvia é afirmar que viagem no tempo é impossível — segundo a conjectura de proteção cronológica, viajar no tempo contraria as leis da natureza, só que ninguém descobriu até hoje qual lei exatamente proíbe todas as formas de viagem no tempo. O argumento mais utilizado é que qualquer máquina do tempo se transforma inevitavelmente em um buraco negro.


Imagine que um pouco de energia entre numa máquina sob a forma de radiação, saia da máquina no passado (em relação a quando ela entrou na máquina), entre uma segunda vez, e assim sucessivamente. Nesse contexto, uma única partícula de luz seria suficiente para produzir energia infinita e colapsar a máquina em um buraco negro. Não obstante, alguns físicos argumentam que é possível contornar esse problema adicionando um custo de energia para atravessar a máquina, ou seja, uma forma de pagar pedágio para que a viagem no tempo aconteça. Nas condições certas, isso bastaria para evitar que a máquina colapsasse.


Em última análise, a verdade é que os cientistas não conseguem decidir se viajar no tempo é impossível ou não baseando-se unicamente nas leis da física. Então, o jeito é recorrer a outro campo do conhecimento — no caso, a filosofia. Vamos analisar o Paradoxo do Avô como uma contradição filosófica, sem nos importarmos com o que as leis da natureza têm a dizer. 


Como vimos, o Paradoxo do Avô aponta para uma contradição lógica verdadeira, ou seja, um cenário que realmente é impossível. Assim, se a viagem no tempo cria uma contradição lógica, então viajar no tempo é impossível. Da mesma forma, se alguma teoria matemática provar que 1 = 2, fica evidente que a teoria está errada, pois 1 e 2 são comprovadamente números diferentes. Dito isso, se algo permite uma situação logicamente impossível, então esse algo é impossível, e concluir que viajar no tempo é impossível é uma interpretação correta do Paradoxo do Avô. Só que essa não é a única conclusão possível.


A criação do paradoxo depende de outros fatores do cenário, e para que ele se forme, devemos assumir que viajar no tempo é matar o avô no passado são ações possíveis à luz da teoria das linhas do tempo alternativas — segundo a qual o viajante volta ao passado — não para o próprio passado, mas para um passado de um universo até então idêntico ao dele até ele estragar tudo voltando no tempo e chegando até lá. 


Mas talvez a viagem no tempo separe o universo em duas linhas, numa das quais o avô do viajante conheceu a avó e outra na qual o viajante executou seu plano assassino. Assim, existe o avô original, que sempre esteve vivo, conheceu a avó e constituiu família, e o avô do universo alternativo que o viajante matou. Em outras palavras, esses dois avôs, tecnicamente diferentes, estariam um morto e o outro vivo ao mesmo tempo.


Uma consequência dessa solução para o paradoxo é que o viajante nunca muda o próprio passado, mas somente um passado alternativo, evitando qualquer paradoxo por conta disso. Claro que essa solução também precisa de algum tipo de universo paralelo para fazer sentido, mas talvez exista outra solução possível.


Em suma, existem basicamente três premissas no paradoxo do avô: a primeira é que viajar no tempo é possível; a segunda é que o viajante pode alcançar as condições certas (8:06) para matar o avô; e a terceira é que o avô que ele matou é o mesmo que se casou com a sua avó, e não uma versão alternativa em outra linha do tempo. A única premissa que ainda não negamos é a de que o passado está determinado e é impossível modificar o que já aconteceu. Assim, ainda que seja possível voltar no tempo, não é possível matar o próprio avô. 


Num primeiro momento, essa parece uma boa solução, mas apenas se partirmos do pressuposto de que o livre-arbítrio não existe. Uma vez que a viagem no tempo exista, o que exatamente é o passado e o que exatamente é o futuro são coisas relativas. Hoje, meu futuro é o amanhã, o mês que vem, o ano que vem. Se eu voltasse até maio passado, meu futuro seria o mês de junho, e assim por diante. Assim, se a viagem no tempo for realmente possível, sempre será possível mudar o passado e alterar o futuro. 


Isso nos leva de volta ao Paradoxo do Avô, mas a solução aqui é simples: talvez não seja possível mudar nem mesmo o futuro, pois tanto o passado quanto o futuro já têm os seus fatos determinados. Existem verdades que não podem ser mudadas — nem no passado, nem no futuro —, da mesma forma que não é possível alguém voltar no tempo para impedir que o avô conheça a avó. Isso sempre esteve determinado, independente de viagens no tempo. Nesse cenário, toda a história é como um filme; todas as informações do que acontece já estão determinadas, não importa qual parte do filme se esteja assistindo. 


Nem todo mundo concorda com a ideia desse universo determinístico, mas existem outros argumentos que embasam a impossibilidade de mudar sem afrontar o livre-arbítrio. A ideia mais popular é o princípio da autoconsistência de Novikov — também conhecido como lei da conservação da história —, segundo o qual a possibilidade de qualquer capaz de causar um paradoxo temporal acontecer é zero.


Dito isso, e considerando que matar o avô no passado cria um paradoxo, então a probabilidade de o viajante ter sucesso nesse intento é zero — talvez a máquina do tempo falhe nessa viagem, ou talvez o viajante chegue ao passado, mas seja atropelado ou sofra outro acidente qualquer que o impeça de evitar que o avô conheça a avó. Ou talvez ele saque a arma, mire o avô e o tiro falhe misteriosamente. 


Ao transformar a possibilidade de criar um paradoxo em zero, essa probabilidade tem que ir para outros eventos menos prováveis. Se a chance de a arma falhar atirando normalmente é de menos de 1%, quando o viajante tenta matar o avô, criando um paradoxo, a chance de o tiro falhar misteriosamente aumenta para 100%. Ainda que a arma funcione perfeitamente em qualquer outro cenário, ela sempre irá falhar quando o viajante tentar matar seu avô.


Viajar no tempo talvez seja 100% possível segundo as leis da física, mas impossível à luz da lógica. Talvez o universo crie situações absurdas dignas de um desenho animado para impedir que viajantes do tempo tenham sucesso em mudar o passado. Aliás, o conceito dos paradoxos temporais pode ser usado de forma ainda mais radical, já que a possibilidade de voltar ao passado implica uma infinidade de ações que podem causar inconsistências e contradições, e esses eventos têm todos probabilidades zero de acontecer.


Em face do exposto, é mais provável que toda tentativa de viajar para o passado falhe, mesmo que a viagem no tempo seja fisicamente possíveis. E mais: supondo que seu hipotético neto invente uma máquina do tempo no futuro, as chances de você morrer ou ficar infértil antes de ter filhos aumentam consideravelmente, impedindo, consequentemente, que seu descendente viaje no tempo e crie os indefectíveis paradoxos. 


Continua…

terça-feira, 14 de julho de 2026

E VIVA O POVO BRASILEIRO

OS BRASILEIROS NÃO SABEM VOTAR, E QUANDO VOTAM, NÃO SE LEMBRAM EM QUEM VOTARAM. 

Devidamente despida do glamour fantasioso atribuído pelos livros didáticos, a Proclamação da República foi um golpe de Estado político-militar que pôs fim à monarquia constitucional parlamentarista do Império, apeou do trono D. Pedro II e implementou o presidencialismo republicano como forma de governo.

Ao longo de 136 anos de história republicana, dos 36/39 brasileiros que chegaram à Presidência pelo voto popular, eleição indireta, linha sucessória ou golpe de Estado (o número depende de como se contam interinos, juntas militares e mandatos não-consecutivos), oito, a começar pelo primeiro — Deodoro da Fonseca —, foram de alguma maneira apeados do poder, e não houve nenhum que pudesse ser considerado "estadista" — lembrando que estadistas governam pensando nas próximas gerações, enquanto os populistas pensam exclusivamente nas próximas eleições.


Observação: Talvez Rui Barbosa ou o Barão do Rio Branco pudessem ser considerados como tal, mas nenhum deles presidiu o Brasil. Em contrapartida, populistas vicejaram como ervas daninhas.


Em 1960, o populista demagogo e cachaceiro Jânio Quadros derrotou o candidato governista, Marechal Henrique Teixeira Lott, e o ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, tornando-se o primeiro presidente desta banânia a ocupar o então recém-inaugurado Palácio do Planalto. Mas sua renúncia, menos de 6 meses depois da posse, pavimentou o caminho para o golpe de estado de 64, que culminou com a deposição do então presidente João Goulart e a posse do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, dando início a uma ditadura militar que se estendeu por 21 anos, comandada pelos generais Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, nessa ordem. 


Em 1968, o “linha-dura” Costa e Silva decretou o AI-5, produzindo um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros que prevaleceram durante o período mais repressivo do governo militar. Em 1974, Geisel deu início ao processo de abertura que, dali a 11 anos, poria termo ao regime de exceção com a eleição (indireta) de Tancredo Neves, que venceu o candidato dos militares Paulo Maluf por 480 votos a 180. 


Em janeiro de 1985, o então presidente da Câmara Ulysses Guimarães — que chegou a ser cogitado para disputar o Planalto pelo PMDB, mas foi preterido pela chapa “mista” formada com o PFL de José Sarney — entregou a Tancredo o programa denominado Nova República, que previa eleições diretas em todos os níveis, educação gratuita, congelamento de preços da cesta básica e dos transportes, entre outras benesses.


O fim da ditadura não foi uma “consequência natural do espírito democrático” de Geisel e Figueiredo e tampouco transcorreu sem turbulências e acidentes de percurso. O processo só foi concluído graças às manifestações populares pró-diretas, que reuniram milhões de pessoas na Candelária, no Vale do Anhangabaú e na Praça da Sé, com faixas, cartazes e camisetas onde se lia a inscrição “EU QUERO VOTAR PARA PRESIDENTE”.


Observação: Nos movimentos pró-diretas, pugnava-se pela aprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira, que visava restaurar o direito às eleições diretas, suspenso pelos militares. No dia da votação, exatos 20 anos depois do golpe, uma manobra de bastidores tirou da Câmara 112 deputados. Apesar do clamor das ruas, a emenda foi rejeitada — ou seja, o povo foi traído mais uma vez pela classe política.


Em 1985, com a esperança e os ânimos redobrados, os brasileiros ansiavam pela chegada do dia 15 de março — data prevista para a posse do primeiro presidente civil depois de 21 anos e a volta dos militares às casernas. Mas o que deveria ser a festa da democracia se transformou em luto nacional: Tancredo foi internado 12 horas antes da cerimônia de posse e morreu 38 dias e 7 cirurgias depois. 


Após algumas discussões jurídicas sobre a possibilidade de Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara, ser guindado ao Planalto, prevaleceu o entendimento de que o rebotalho do coronelismo nordestino José Sarney, vice na chapa de Tancredo, deveria ser empossado. E foi o que aconteceu, para o bem e para o mal.


Ao contrário do que escreveu Karl Marx, a história nem sempre se repete como farsa; às vezes, ela reproduz fielmente o passado. Na eleição direta de 1989 — a primeira para presidente desde 1960 —, 22 candidatos (entre os quais Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola) disputaram o Planalto, mas a récua de muares que insiste em fazer a cada eleição, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez, por curiosidade, escalou para o segundo turno Lula, o desempregado que deu certo, e Collor, o caçador de marajás de mentirinha. E o resto é história recente.


Prestes a completar 81 anos, o macróbio petista busca seu quarto mandato, tendo como principal adversário filho do ex-presidente golpista que os cegos mentais tratam por "mito", mas na verdade não passa de um combo de mau militar e parlamentar medíocre aspirante a golpista.


Sobre o desgoverno Lula, a reprovação popular apontada pelos institutos de pesquisa dizem tudo. Já o primogênito do refugo da escória da humanidade enfrenta dois adversários inesperados: no Brasil, ele é mastigado por um movimento autofágico da madrasta; nos EUA, vive a síndrome da ameaça de um novo tarifaço de 25% do pseudoaliado Donald Trump.


A despeito da promessa de pacificar o país, o filhote de sacripanta não consegue sequer obter um armistício com Micheque, além de acenar com uma relação privilegiada com a Casa Branca, sem se dar conta de que a calopsita alaranjada não quer aliados, mas vassalos.


Fugindo do apelido de Tariflávio, o filho do pai endereçou nova carta a Washington — desta vez para o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o temível USTR —, na qual anotou que novas tarifas dariam "uma vitória política" ao governo Lula. Em vez de pedir a reversão das tarifas, rogou que a punição seja adiada para "depois das eleições". Ou seja, além de legitimar a natureza política da sanção mostrou-se preocupado com sua campanha, não com os exportadores brasileiros.


Rápido como o raio que o parta, o xamã petista recorreu às redes sociais para acusar a quadrilha, digo, a família Bolsonaro de entreguista. Escreveu que pedir o adiamento da sanção é coisa de "traidores da pátria", pois "não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois".


Ao oscilar entre a autofagia e a trumpfobia, Bolsonarinho gira como um parafuso espanado em torno de problemas que ele próprio criou. Fornecendo material para o adversário, torna-se um caso raro de líder da oposição à sua própria candidatura.


E viva o povo brasileiro.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

A QUE PONTO CHEGAMOS!

NÃO É POSSÍVEL CONVENCER UM FANÁTICO DE COISA ALGUMA, POIS SUAS CRENÇAS NÃO SE BASEIAM EM EVIDÊNCIAS, MAS SIM NUMA PROFUNDA NECESSIDADE DE ACREDITAR.   


O saudoso Ivan Lessa ensinou que o brasileiro esquece a cada 15 anos o que aconteceu nos últimos 15 anos. Isso explica por que a récua de muares supostamente capacitada a votar repete a cada eleição o erro que Pandora cometeu uma única vez.

 

Depois de 21 anos de ditadura e 29 de jejum de urna, os brasileiros recuperaram o direito de votar para presidente. Na eleição solteira de 1989, o cardápio incluía Ulysses Guimarães, Mario Covas e Leonel Brizola, mas o esclarecidíssimo eleitor achou por bem despachar para o segundo turno um caçador de marajás demagogo e populista e um ex-metalúrgico populista e demagogo. 

 

Collor derrotou Lula em 1989 e Fernando Henrique, em 1994 e 1998 — ambas as vezes no primeiro turno. Mas faltaram ao tucano de plumas vistosas novos coelhos para tirar da velha cartola e assim Lula venceu José Serra em 2002 e Geraldo Alckmin em 2006 — a despeito do escândalo do mensalão. Quatro anos depois, ainda com a popularidade maior que o ego, travestiu de “gerentona” uma incompetente de quatro costados  e a incumbiu de manter aquecida a poltrona que ele pretendia disputar novamente em 2014.

 

Dilma derrotou Aécio no segundo turno, mas foi afastada do cargo em abril de 2016 e apeada em definitivo no final de agosto, quando então seu vice, Michel Temer, foi efetivado no cargo. Num primeiro momento, a troca de comando foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba: depois de 13 anos ouvindo garranchos verbais de um ex-retirante semianalfabeto e frases desconexas de uma gerentona de araque, um presidente que sabia falar — e até usar mesóclises — foi um refrigério. 

 

Temer conseguiu baixar a inflação e aprovar o Teto de Gastos e a Reforma Trabalhista, mas seu prometido "ministério de notáveis" se revelou uma notável confraria de corruptos, e sua "ponte para o futuro", uma patética pinguela. Depois que uma conversa de alcova com Joesley Batista veio a público, o emedebista pensou em renunciar, mas foi demovido pelo então deputado Carlos Marun, que se encarregou de escudá-lo das “flechadas de Janot”. 

 

Nosso folclórico “Vampiro do Jaburu” terminou seu mandato-tampão como um pato manco e transferiu a faixa ao pseudopatriota eleito em 2018 para evitar que o Brasil fosse governado por um fantoche de presidiário. Mas foi pior a emenda que o soneto: a nefasta gestão de Bolsonaro — um mau militar e parlamentar medíocre de viés golpista — levou o STF a anular as condenações de Lula, embora elas já tivessem transitado em julgado no STJ quando o ministro Fachin, relator da Lava-Jato na Suprema Corte, acolheu a tese da incompetência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba — que ele próprio já havia rejeitado mais de dez vezes. 

 

Assim que o plenário da Corte reverteu (por 6 votos a 5) a jurisprudência que permitia o cumprimento antecipado da pena após condenação em segunda instancia, o petista deixou a cela VIP onde ficou hospedado por míseros 580 dias e, tão logo foi “descondenado” e reabilitado politicamente (por uma sequência de decisões teratológicas), voltou ao palanque e se derrotou Bolsonaro por uma vantagem de 1,8% dos votos válidos.

 

Evitar mais quatro anos (ou sabe Deus quantos) sob a batuta do capetão-golpista era crucial, mas reconduzir o criminoso à cena do crime era opcional. Ainda assim, a quimérica “terceira via” — tanto com João Dória quanto com Henrique Mandetta, Sergio Moro e Simone Tebet — não prosperou, e Lula, que jamais desceu do palanque, segue candidatíssimo a um nada improvável quarto mandato. Mas querer nem sempre é poder.

 

É claro como o sol do meio-dia que Bolsonaro e seus cúmplices do “núcleo crucial da trama golpista” serão condenados na próxima sexta-feira, e podem "pegar" mais de 40 anos de prisão se as penas máxima previstas para os cinco crimes forem aplicadas. Sem embargo, o 7 de Setembro foi marcado por manifestações contra e a favor do perdão aos atos golpistas — na Praça da República, 8,8 mil manifestantes entoaram gritos de “sem anistia” e exaltaram a soberania nacional; na Avenida Paulista e em Copacabana, 84,9 mil bolsonaristas pediram “anistia já”, criticaram o STF e elogiaram os EUA — com direito a uma enorme bandeira americana. 

 

Tarcísio de Freitas transformou sua aparição no alto do caminhão de som num espetáculo pornográfico. Despido desavergonhadamente do que seria seu maior patrimônio político — a presunção de moderação — o governador paulista cavalgou o Kama Sutra em posições ideológicas exóticas. “Ninguém aguenta mais a tirania de Alexandre de Moraes”. Gilmar Mendes saiu em defesa do colega de toga: “o que o Brasil realmente não aguenta mais são as sucessivas tentativas de golpe”.

 

Tarcísio sabe que a condenação consolidará o expurgo do "mito" das urnas, mas, de olho no espólio, soou tão radicalmente inaceitável quanto seu padrinho político. Para criador e criatura, o cinismo é uma forma de patriotismo, mas a candidatura do governador ao Planalto apodreceu antes de amadurecer, enquanto sua reeleição em São Paulo, antes provável, vai se tornando um roliço ponto de interrogação. 


Como era de esperar, o pano de fundo das manifestações foi impregnado de 2026. O ex-presidiário prevalece sobre qualquer rival em todas as pesquisas, enquanto o futuro presidiário ora veste a fantasia de vítima, ora a alegoria de “réu dodói”. Só não troca o papel de candidato fake, embora 65% dos eleitores avaliem que devesse admitir a morte política e apressar o testamento do que lhe restou de espólio eleitoral. Sem falar que 61% dos entrevistados pelo Datafolha fizeram cara de nojo para presidenciáveis que prometem anistiar o "ex-mito" de suas culpas.

 

A persistência com que o ódio de uma fação extremada mobiliza multidões não serve senão para aguçar a extrema angústia de brasileiros que já estão com o saco cheio de tudo o que não se pareça com um projeto consistente de futuro. E essa gente não costuma gritar no meio da multidão — ao contrário, prefere o escondidinho da cabine eleitoral.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

A QUINTESSÊNCIA DA PARVOÍCE

MAIS VALE ACENDER A VELA QUE AMALDIÇOAR A ESCURIDÃO. 

Einstein estava coberto de razão quando disse (se é que disse) que o Universo e a estupidez humana são infinitos. Além de estúpidas, as pessoas são eternamente insatisfeitas. Muitas reclamam pelo simples prazer de reclamar; outras, por não saberem que o ótimo é inimigo do bom, que a perfeição é um ideal e a imperfeição, a realidade; que nem sempre se alcança a excelência perseguindo a perfeição; e que "bom o bastante" já está de bom tamanho. Isso sem falar na seleta confraria dos "saudosistas". 


Ter saudade dos bons momentos que se foram — não voltam mais, a menos que as viagens no tempo se tornem realidade — é uma coisa; dizer que a vida era melhor nos tempos da ditadura é outra. Sobretudo quando quem declama essa "pérola do nonsense" nasceu depois de 1985. Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago — Nobel de Literatura em 1998 — anotou que o pior tipo de cegueira é a mental. Isso explica por que os eleitores brasileiros fazem a cada dois anos o que Pandora fez uma única vez. Ou por que milhares de lunáticos são favoráveis à anistia de Bolsonaro — quiçá o pior mandatário desde Tomé de Souza. Ou por que outros tantos acreditam que a autoproclamada alma viva mais honesta do Brasil foi declarada inocente — quando, na verdade, suas condenações transitadas em julgado foram anuladas a pretexto de uma suposta incompetência territorial que o ministro Fachin, relator dos processos da finada Lava-Jato no STF, já havia rejeitado uma dezena de vezes.

 

Depois do golpe de 1964 e dos subsequentes 21 anos de ditadura, os brasileiros reconquistaram o direito de votar para presidente. Em 1989, a despeito de nomes como Ulysses Guimarães, Leonel Brizola e Mário Covas figurarem entre os 22 itens do cardápio, Collor e Lula foram escolhidos para disputar o segundo turno. O pseudocaçador de marajás derrotou o desempregado que deu certo, mas foi impichado em 1992. Fernando Henrique derrotou Lula em 1994 e 1998, mas a vitória deste sobre José Serra em 2002 deu início a 13 anos, quatro meses e 12 dias de jugo lulopetista.

 

Em 2018, um combo de mau militar e parlamentar medíocre, travestido de patriota e empunhando a bandeira de salvador da pátria, foi eleito para evitar que o Brasil fosse presidido pelo preposto-bonifrate do então presidiário mais famoso do país. Acabou que sua péssima administração e seu viés golpista deram azo à "descondenação" do xamã petista, que retornou ao Palácio do Planalto em 2023 porque reeleger Bolsonaro seria ainda pior. Em qualquer democracia que se desse ao respeito, esse refugo da escória da humanidade teria sido deposto da Presidência. Mas faltou combinar com os chefes de turno da Câmara — Rodrigo Maia e Arthur Lira arquivaram mais de 140 pedidos de impeachment — e com o antiprocurador-geral Augusto Aras — que fez ouvidos moucos a dezenas de denúncias por crimes comuns durante a pandemia de Covid. E deu no que está dando.

 

Inconformado com a derrota nas urnas, Bolsonaro articulou um golpe de Estado para se perpetuar no poder. A intentona não prosperou por falta de adesão incondicional das Forças Armadas, mas o Estado Democrático de Direito, gravemente ferido, ainda amarga as sequelas do golpe fracassado e do funesto 8 de janeiro. O uso da tornozeleira eletrônica e as demais medidas cautelares impostas pelo STF deixaram-no a um passo de uma eventual prisão preventiva. O julgamento que decidirá seu futuro (bem como o de sete integrantes do alto comando do golpe) deve ocorrer no mês que vem, e a condenação (que pode ultrapassar 40 anos de reclusão) é tida como favas contadas.


Observação: Moraes finalmente decretou a prisão domiciliar do imbrochável, incomível, imorrível e inelegível aspirante a golpista. Como ele não poderá sair de casa nem mesmo antes das 19h, nossas ruas ficarão mais seguras. Ou nem tanto: bolsonaristas despirocados saíram em carreata por avenidas de Brasília e proveram um "buzinaço", ontem à noite, defronte à residência do "mito" no bairro Jardim Botânico (DF). Visando preparar a opinião pública para a notícia e evitar fornecer matéria-prima para vitimismo do capetão, o ministro decidiu conduzir o réu à cadeia em suaves prestações. 

Não restam dúvidas de que Bolsonaro escarneceu da Justiça e desrespeitou as medidas cautelares inicialmente impostas por Xandão. Zero um — também conhecido como "senador das rachadinhas e mansões milionárias" — assumiu a responsabilidade pela divulgação das imagens e o áudio, mesmo tendo sido alertado pelos advogados para o risco de o estratagema não funcionar. Zero dois — tido como pitbull do clã e ex-comandante do "gabinete do ódio" — teve um piripaque quando soube da prisão do pai e foi atendido em um hospital da Barra da Tijuca (zona sul carioca). Mas e daí? Eu não sou coveiro... 

O descumprimento foi de uma clareza meridiana, mas a polarização divide os brasileiros em dois grupos que apoiam seus respectivos bandidos de estimação — aquele que foi "descondenado" e aquele que está aguardando a sentença. Assim, não faltarão críticos à decisão de Moraes. 


Ainda assim, milhares de lunáticos descerebrados continuam atendendo aos chamados do pastor Silas Malafaia, do presidente do PL e do líder do partido na Câmara. No último domingo, cerca de 37 mil abilolados ocuparam duas quadras da mais paulista das avenidas para pugnar por uma inconcebível e inadmissível anistia — bem menos que os 185 mil de fevereiro de 2024, mas mais que o dobro dos que compareceram ao ato de 29 de junho deste ano na mesma avenida. E como nada é tão ruim que não passa piorar, 33 senadores são favoráveis ao impeachment de Alexandre de Moraes, 29 são contra e 19 seguem indecisos (segundo levantamento feito por sites alinhados com a direita radical). 

 

Nos 134 anos de história do STF, nunca um ministro perdeu a toga por causa de um processo de impeachment — mas para tudo há uma primeira vez. Some-se a isso as ações do filho 03 do ex-presidente e do neto do último ditador do regime militar, que resultaram no "tarifaço" decretado pelo chefe da Casa Branca contra o Brasil — não por razões econômicas, mas como retaliação pela suposta “caça às bruxas” que o STF estaria promovendo contra Bolsonaro, seus cúmplices e demais "milicianos" da direita radical.

 

As sanções impostas ao Brasil e o cerco financeiro a Moraes — passível de ser estendido a outros ministros do STF — demonstram que não se pode desdenhar da aptidão de certos seres deformados para produzir o mal, além de evidenciarem que é justo — e até “ameno” — o rigor da Corte com uma escória que foi capaz de engendrar planos de prisão e assassinatos para tentar não só contrariar a vontade popular expressa em eleição livre, mas também derrubar os preceitos de democracia reconquistada a duríssimas penas.

 

O “Brasil acima de tudo” é uma balela, como restou demonstrado na ofensiva da direita extremada liderada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. Os dois foram subestimados enquanto a crítica à rigidez do STF, da PF e da PGR na condução da investigação e do julgamento dos crimes de lesa-pátria foi superdimensionada. Mas nunca é tarde para corrigir o rumo da abordagem dos acontecimentos que desembocam num fato: de um lado, há infratores; de outro, operadores da lei. Não é difícil escolher junto a qual tipo de vizinhança devemos nos postar.

 

A Justiça, ainda que cega, tem seus meios — e a política, ainda que polarizada, seus próprios métodos — para extirpar de seu seio os criminosos de alto coturno. A despeito do êxito momentâneo dos conspiradores, o efeito pode ser temporário se os brasileiros conseguirem reconhecer o risco de dar asas a cobras que, tratadas com complacência, voltarão a atacar. Resta ao eleitorado primar pelo discernimento na hora do voto, deixando Pandora e sua caixa na mitologia grega, que é o lugar ao qual elas pertencem.