terça-feira, 13 de dezembro de 2016

TRANSMISSÃO MANUAL, AUTOMÁTICA OU AUTOMATIZADA? ― Final


É MUITO DIFÍCIL NÃO SER CANALHA. TODAS AS PRESSÕES TRABALHAM PARA O NOSSO AVILTAMENTO PESSOAL E COLETIVO.

Hoje em dia, tanto as transmissões automáticas quanto as automatizadas permitem, em sua maioria, a troca sequencial (pela própria alavanca ou por meio de “shift paddles” ― borboletas estrategicamente instaladas atrás do volante da direção ―, o que é muito útil, embora só seja possível selecionar uma marcha imediatamente superior ou inferior de cada vez ― ou seja, você não pode passar de 1ª para 3ª ou reduzir de 4ª para 2ª, por exemplo. Além de P (Park), R (ré), N (neutro ou ponto-morto) e D (drive), alguns modelos automáticos trazem ainda as posições 1 e 2 ― que travam o câmbio na primeira marcha e alternam entre a primeira e a segunda marchas, respectivamente ― o que é providencial em aclives acentuados, ao puxar reboques, ou ainda para usar o freio-motor ao descer uma serra, por exemplo. Em D, o sistema utiliza todas as marchas disponíveis (que podem ser 3, 4, 5, 6, 8, e por aí afora).

Câmbios automatizados geralmente não têm a posição P ― embora, por segurança, só permitam ligar o motor com a alavanca em N, e, conforme o modelo, com o pedal do freio pressionado. Com a alavanca em D, o comportamento é idêntico ao dos automáticos, e se você acionar a tecla S (Sport) ― caso ela esteja disponível ―, a troca de marchas será feita em rotações mais elevadas, proporcionando um comportamento mais "esportivo".

Em tese, veículos com transmissão automática ou automatizada de última geração são mais econômicos do que seus equivalentes com câmbio manual, mas na prática a teoria costuma ser outra, pois os resultados variam conforme o combustível utilizado, as condições do trânsito e a maneira de dirigir de cada motorista. Eu, particularmente, nunca consegui rodar mais de 5km por litro de álcool no trânsito urbano em nenhum dos veículos automáticos e automatizados que usei desde quando resolvi dar férias à perna esquerda, há coisa de 10 anos.

A despeito do bom desempenho, não espere arrancadas cinematográficas, riscando o asfalto em meio a nuvens de fumaça (burn out). Embora qualquer veículo popular seja capaz de "cantar pneus" quando você engrena a primeira marcha, eleva o giro do motor até o regime de torque máximo e então libera o pedal da embreagem, somente motores com abundância de torque e potência são capazes de compensar o "delay" característico do conversor de torque dos automáticos e as limitações do acionamento robotizado da embreagem dos automatizados.

Muita gente receia comprar um carro automático ou automatizado e não se acostumar, mas acredite: depois de um breve período de adaptação, você não vai sentir saudade do velho câmbio manual. Até porque o manejo do veículo é extremamente simples (veja detalhes na postagem anterior), ainda que alguns cuidados devam ser observados, tais como evitar mudar a alavanca seletora de marchas para as posições R ou P enquanto o veículo não estiver totalmente imobilizado. Embora P trave as rodas motrizes, isso NÃO SUBSTITUI O FREIO DE ESTACIONAMENTO, que deve ser acionado sempre que você estacionar o veículo ou ficar parado numa ladeira (esperando a abertura do sinal, por exemplo), a não ser que o veículo conte com o hill assist, que mantém o carro imobilizado por alguns segundos, permitindo que o motorista tire o pé do freio e pise no acelerador sem que ele recue.

Manter o carro parado numa ladeira dosando a aceleração e a pressão no pedal da embreagem (em veículos com transmissão manual) não é uma prática recomendável, pois provoca superaquecimento e desgasta prematuramente o disco de fricção. E o mesmo se aplica aos automáticos e automatizados ― que, embora não tenham pedal de embreagem, podem ser mantidos imóveis mediante uma leve pressão no acelerador. Todavia, nessas situações o recomendável é sempre usar o freio de mão.

Outra diferença digna de menção remete à dirigibilidade: nos automáticos (e na maioria dos automatizados atuais), basta colocar a alavanca em D ou R para que a função creeping movimente o carro em velocidade reduzida sem que você precise pisar no acelerador. Já a troca de marchas nos automatizados costuma produzir "trancos" incomodativos, resultantes do corte na rotação durante o desacoplamento/acoplamento da embreagem (isso era bem mais perceptível nos modelos de primeiras safras, mas bastava você se familiarizar com o sistema para "antecipar" as mudanças e minimizar o inconveniente dosando a pressão no acelerador).

Observação: Tanto numa tecnologia quanto na outra, as trocas de marchas nem sempre ocorrem no momento desejado, embora seja possível forçar reduções através do "kick down" ― prática que consiste em pressionar o acelerador até o final de seu curso.

Vale lembrar que já existem sistemas de transmissão ainda mais sofisticados, como o CVT, em que duas polias de diâmetro variável unidas por uma correia metálica substituem as engrenagens convencionais e proporcionam aceleração contínua, sem trancos, dando a impressão de que o veículo nunca troca de marcha. Outra solução interessante é a dupla embreagem, desenvolvida com vistas a veículos de competição, que necessitam de mais rapidez na troca de marchas. Nessa tecnologia, uma embreagem controla as marchas pares e a outra, as ímpares. Desse modo, quando a primeira está engatada, a segunda já está "em stand-by", e assim sucessivamente. E como a troca é praticamente instantânea, o sistema não precisa cortar a força do motor e nem o motorista aliviar o pé do acelerador para evitar trancos.

Observação: Algumas transmissões de dupla embreagem, como a PowerShift da FORD, melhoram o desempenho e reduzem o consumo de combustível (clique aqui para mais detalhes), mas produzem um ruído incomodativo em baixa velocidade, notadamente em ruas de piso irregular (o mesmo ocorre com algumas versões do Golf e do Jetta, da VW). Em contato com a FORD, fui informado de que não se trata de um defeito, mas de uma “característica do produto”. Mesmo assim, devido a inúmeras reclamações, a montadora tem planos de substituir em breve o PowerShift de dupla embreagem por uma transmissão do tipo CVT.

Ao fim e ao cabo, qual a melhor opção? O velho e confiável câmbio manual, a cara transmissão automática ou a não tão cara (mas ainda um tanto nebulosa) caixa automatizada? Fica a gosto do freguês. No entanto, caso você tencione adquirir um veículo automático ou automatizado de segunda mão, procure sinais de vazamento (o fluido da transmissão automática parece xarope de groselha, tanto na cor quanto na consistência). E se, ao testar o carro, você reparar que as trocas de marchas entre P, D e R demoram mais do que dois segundos ― ou, pior, são acompanhadas de trancos e ruídos esquisitos ―, não compre.

Verifique também se as revisões foram feitas dentro dos prazos estabelecidos pelo fabricante (especialmente se o veículo ainda estiver dentro do prazo de garantia, que em alguns modelos chega a 5 anos). Rode por ruas sossegadas ― para "sentir" melhor as trocas de marchas, que devem ocorrer de maneira suave, sem ruídos, trancos ou aumento de rotação do motor que não reflita nas rodas motrizes (patinagem) ―, mas não deixe de desenvolver velocidades mais elevadas, avançando e reduzindo as marchas (alguns problemas só se manifestam depois que a transmissão atinge temperaturas mais elevadas). Na dúvida, consulte um mecânico de confiança.

Boa sorte.

SALVE SUA INSOLÊNCIA

Depois de abalar os já estremecidos alicerces da república da Banânia e afrontar o STF, recusando-se a assinar a notificação que o afastava da presidência do Senado, sua insolência o senador Renan Calheiros, que já era réu em uma ação por peculato e investigado em mais 11 processos, foi denunciado pela PGR na última segunda-feira por recebimento de propina e lavagem de dinheiro. Agora, basta que o Supremo aceite a denúncia para que o Renan ele passe a réu pela segunda vez.

Esta é a primeira denúncia contra o todo-poderoso presidente do Senado no âmbito da Lava-Jato, mas outras certamente virão com a Delação do Fim do Mundo ― em que Emílio Odebrecht, seu filho Marcelo e mais 75 executivos do grupo detalham atos nada republicanos cometidos por pelo menos 200 políticos do alto escalão, dentre os quais o próprio presidente Michel Temer. E uma vez assinada a mãe de todas as delações, a equipe de Rodrigo Janot retomou as negociações com a OAS, Mendes Júnior, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa.

De acordo com o ESTADÃO, aliados de Temer estão se articulando para questionar a legalidade da delação do Cláudio Melo Filho, buscando usar o vazamento das informações para suspender o acordo, a exemplo do que ocorreu com a delação de Leo Pinheiro, que teve as negociações suspensas por Rodrigo Janot depois que Veja publicou extensa matéria denunciando um suposto favorecimento da OAS ao ministro Toffoli (para mais detalhes, clique aqui). No último domingo, durante reunião com o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o líder do governo no Congresso, Romero Jucá, e o secretário de Programa de Parceria de Investimentos, Moreira Franco ― todos suscitados no anexo entregue por Cláudio Melo Filho ―, Temer salientou que o depoimento do delator baiano ainda precisa ser homologado pelo STF (tire o leitor suas próprias conclusões).

Para quem não acha isso preocupante, é só lembrar do “acordão” costurado na semana passada pelos três Poderes, que, a pretexto de “zelar pela estabilidade institucional”, criou a figura do “meio senador” ― como bem definiu o ministro Marco Aurélio ―, ao afastar Renan da linha sucessória da presidência da República sem cassar seu mandato e apear o sacripanta na presidência do Senado e do Congresso Nacional. Ou a monumental jabuticaba jurídica urdida pelos apoiadores de Dilma ― com a conivência de Renan (sempre ele) e o aval do então presidente do Supremo Ricardo Lewandowski ―, que defenestrou a dita-cuja do Planalto, mas não a inabilitou ao exercício de cargos públicos (o que seria uma consequência natural da perda do mandato).

Enquanto isso, o deus pai da Petelândia continua livre, leve e solto, figurando em pesquisas de intenção de voto (não sei até que ponto confiáveis) como virtual vencedor na disputa presidencial de 2018 ― o que eu classificaria como puro delírio, não fosse a notória a absoluta falta de bom senso em grande parte do eleitorado tupiniquim. Mas a esperança é a última que morre, e é possível que o molusco abjeto seja devidamente recolhido bem antes disso à carceragem da PF em Curitiba.

Observação: Lula, que já é réu em 4 ações penais, voltou a ser denunciado pelo MPF de Brasília por tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Ontem, durante uma audiência em Curitiba, o juiz Sergio Moro perdeu a paciência com Juarez Cirino dos Santos, um dos advogados do petralha ― pela postura impertinente do causídico, conclui-se que megalomania não só e contagiosa como também transmissível por simbiose.  

Falando em sucessão presidencial, existem possibilidades também de a chapa Dilma-Temer ser cassada pelo TSE, e como já estamos nos estertores de 2016, se isso ocorrer, será depois de 1º de janeiro, situação em que a Constituição prevê eleições indiretas (ou seja, o processo sucessório é tocado pelo Congresso). Todavia, considerando o desgaste dos atuais políticos, juristas ― e até alguns ministros do Supremo ― já admitem mudanças nas regras em nome da governabilidade.

E viva o povo brasileiro!

Confira minhas atualizações diárias sobre política em www.cenario-politico-tupiniquim.link.blog.br/

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

TRANSMISSÃO MANUAL, AUTOMÁTICA OU AUTOMATIZADA? ― Continuação

"EIN GUTES GEWISSEN IST EIN SANFTES RUHEKISSEN" (UMA CONSCIÊNCIA LIMPA É O TRAVESSEIRO MAIS MACIO QUE EXISTE).

A função da embreagem é acoplar ou desacoplar dois sistemas rotativos distintos (o motor e o câmbio, no caso do automóvel), permitindo-lhes girar em conjunto, separadamente, ou em rotações diferentes. O modelo usado nos veículos equipados com câmbio manual é acionado pelo motorista através de um pedal que leva o garfo a pressionar o rolamento de encosto contra a mola-diafragma do platô, reduzindo a pressão sobre o disco de fricção. Conforme esse pedal é liberado, dá-se o efeito inverso, ou seja, o disco volta a ser pressionado contra o volante do motor, elevando gradualmente a rotação até igualá-la à do eixo piloto.

Observação: Uma das maiores dificuldades dos motoristas iniciantes é conciliar a aceleração com a pressão no pedal da embreagem, o que é indispensável para aproveitar o efeito de "patinagem" ao manobrar o veículo ou vencer a inércia ― notadamente em aclives ― evitando que o motor "morra" e/ou o carro se movimente aos solavancos.

Já ao sistema de transmissão (câmbio/diferencial) compete desmultiplicar a rotação do motor e repassá-la às rodas motrizes sob a forma de torque ou potência, conforme as exigências do veículo a cada momento (mais detalhes nesta postagem).

A primeira etapa desse processo cabe ao câmbio, cujo sofisticado conjunto de eixos, engrenagens, garfos e luvas de engates produz as diversas relações (marchas) que o motorista seleciona manualmente através da alavanca de mudanças. A segunda fica por conta do diferencial, que também é composto por um rebuscado conjunto de engrenagens ― coroa e pinhão, planetárias e satélites ― que desmultiplicam (mais uma vez) a rotação proveniente do câmbio e a repassam às rodas motrizes, permitindo que elas girem em velocidades diferentes durante as curvas ― situação em que as rodas "internas" percorrem trajetórias menores do que as "externas".

Observação: Na maioria dos carros fabricados atualmente no Brasil, que têm motor e tração dianteiros, o diferencial fica acoplado à caixa de câmbio; em veículos com motor dianteiro e tração traseira, ele é instalado entre as rodas motrizes e recebe o movimento rotacional transmitido pelo câmbio através de um eixo longitudinal (cardan).

Veículos (0 KM) com transmissão automática ou automatizada tendem a custar mais caro do que modelos com câmbio manual, mas não ter de acionar a embreagem nem mudar as marchas no trânsito caótico das grandes metrópoles não tem preço, e muita gente vem se rendendo às benesses dessas opções.

No câmbio automático, um conversor de torque faz o papel da embreagem e um conjunto de planetárias, auxiliado por um sofisticado mecanismo de apoio, produz as relações de transmissão que são repassadas às rodas motrizes. Já as caixas automatizadas são, conforme eu já disse, as mesmas das transmissões manuais. A diferença é o acionamento da embreagem e a troca de marchas, que ficam a cargo de um robô (daí esse sistema ser conhecido também como transmissão robotizada).

Note que em ambos os casos o pedal da embreagem foi suprimido, mas a alavanca de mudanças continua presente, seja no console central, seja na coluna da direção (em alguns modelos top de linha, ela dá lugar a um seletor na forma de botão, mas isso já é outra história). Em última análise, você só precisa ligar o motor (na maioria dos câmbios automáticos, a alavanca deve estar em P e o pedal do freio, pressionado), selecionar a opção D, acelerar e frear, pois o sistema se encarrega de selecionar automaticamente as marchas mais adequadas a cada situação. 

Amanhã a gente conclui. Abraços e até lá.

E VIVA O POVO BRASILEIRO!

A despeito de eu discordar enfaticamente de quem atribui a Temer a culpa pela maior crise da nossa história, questiona a legitimidade do seu governo, classifica de golpe a medida saneadora que defenestrou a imprestável ex-grande-chefa-toura-sentada-ora-impichada e dá ouvidos às bazófias de Lula ― o populista boquirroto que prometeu combater a corrupção e, em vez disso, institucionalizou-a e dela se serviu para financiar seu espúrio projeto de poder e multiplicar seu patrimônio pessoal e familiar ―, não posso aplaudir o que está acontecendo no país sob o comando do PMDB e seus aliados.

Como se não bastasse a cachoeira de denúncias envolvendo políticos de todas as esferas, ideologias e siglas ― que se tornará ainda mais caudalosa com a homologação das delações premiadas de 77 executivos da Odebrecht, dentre os quais os todo-poderosos Emilio e Marcelo ― e a demora da Justiça em punir exemplarmente os “cabeças” do Petrolão ― que todo mundo já sabe quem são ―, repugna-me ver o Poder Judiciário, talvez o último bastião desta república capenga e nossa derradeira esperança de um Brasil melhor ― submeter-se ao Legislativo, com a conivência do Executivo (ou a rogo deste, melhor dizendo) a pretexto de evitar uma “crise institucional”.

Na semana passada, o STF abandonou a posição de pedra angular da vida nacional e protagonizou um deplorável espetáculo bananeiro de meter vergonha em qualquer cidadão que aspira a viver em um país com instituições sólidas, previsíveis, respeitáveis e estáveis”, diz a Revista Veja desta semana, na sessão Carta ao Leitor. E com razão.

A palhaçada começou quando Marco Aurélio Mello, atendendo a um pedido do partido Rede Sustentabilidade, decidiu afastar Renan Calheiros da presidência do Senado pelo fato de ele ser réu por crime de peculato (além de investigado em pelo menos mais 11 processos que tramitam no Supremo). Ao tomar essa decisão monocraticamente, todavia, o ministro jogou uma bomba no colo da Corte, até porque o todo poderoso senador alagoano resolveu simplesmente ignorar a ordem ― atitude que o ministro Luis Roberto Barroso classificou como “crime de desobediência” ― e, ato contínuo, driblou pateticamente o oficial de justiça que lhe foi entregar a notificação e articulou com a mesa diretora do Senado uma espécie de rebelião do Congresso. 

Em outras palavras, sua insolência deixou claro o Congresso é seu território particular, onde todo o poder emanava dele, Renan, e em seu nome deve ser exercido. E como era consenso entre os caciques da Banânia que sem Renan não se aprovaria a PEC dos gastos, e sem a aprovação dessa proposta o governo morreria na praia, encenou-se uma verdadeira ópera bufa, tendo o STF como palco e o povo como “bobo da corte”.

A pedido de Temer e a pretexto de “zelar pela estabilidade institucional”, a ministra Carmem Lucia convocou a toque de caixa uma sessão extraordinária para julgar o mérito da liminar do ministro Marco Aurélio, na qual ficou provado que “manda quem pode, desobedece quem tem juízo”. Por 6 votos a 3, Renan, o irremovível, foi afastado da linha sucessória presidencial, mas manteve o mandato e o cargo de presidente do Senado. 

Assim, pariu-se a jabuticaba que criou a figura inusitada do “meio senador” ― para o desalento da nação, que esperava mais do Judiciário (a quem cabe fazer justiça, e não adotar atitudes “patriótica”, como bem definiu Renan, ao comemorar a decisão do Supremo). Participaram do espetáculo, ainda que como eminências pardas, barões da República do quilate de Sarney, Aécio e FHC ― visando garantir que Renan ficava, a despeito de sua postura insolente, ou o Brasil partiria para o desconhecido, numa promessa de mais baderna, gritos e acusações. Velhos caciques que preservam suas posições, mas não ajudam muito: para fortalecer a democracia, precisamos urgentemente de novas lideranças. 

domingo, 11 de dezembro de 2016

A LENDA DE HARRY P. TER E ROBEWARTS ― Por Mentor Neto



A cada quatro anos, a entrada do Palácio do Planalto se transforma por algumas horas num portal que leva a um mundo escondido de nós, simples pagadores de tributos.

Nesse dia, políticos empurrando carrinhos com suas malas de dinheiro embarcam para uma jornada na mais famosa escola de Magos da Corrupção que já se conheceu: O mundo de Robewarts. O lugar onde aprenderão a nos ludibriar, roubar e enganar.

Robewarts é um edifício gigantesco, uma obra faraônica construída por uma importante empreiteira como presente para o Mago dos Magos. Aquele que foi o mais talentoso de que se tem notícia. O inigualável Harry P. Ter.

Conta a lenda que Harry P. Ter, ainda criança, dominava a arte de transformar tudo que comprava em empréstimos de amigos. E por falar em amigo, seu braço-direito, Dircione, aprendeu desde cedo a cooptar os colegas. Para isso, ele usava dinheiro que fazia aparecer com as palavras mágicas: Youseff, Offshoris, Dolaris! E, pimba, o coitado do companheiro menos talentoso aparecia em seu bolso.

Harry dirigiu a escola por décadas, até passar o bastão para sua melhor discípula, Dildore, que o substituiu na presidência de Robewarts. Mesmo sem o talento de seu mestre, ela era versada como ninguém em Desfaçateologia, e decidiu passar seus últimos anos ensinando a novos magos as mais nobres artes.

A rotina de Robewartz é muito parecida com a de qualquer escola. Cada aluno rapidamente descobre seus principais talentos e pode aperfeiçoá-los ao máximo. No pátio, um grupo de alunos aprende como transformar companheiros em laranjas enquanto outros treinam as técnicas de fingir-se de doente para escapar da cana.

Assim, a escola manteve por séculos a tradição de abrigar milhares de estudantes que passam seus dias aprimorando a magia do Enriquecimento Ilícito. Se alguém pudesse visitar a escola, escutaria dois alunos conversando:

– Amanhã tem prova de Subornologia e eu não vou passar…

– Mas você não tinha molhado a mão da professora?

– Tinha. Mas ela deu pra trás. Agora quer mais cinco mil, e meu dinheiro acabou.

– Não por isso rapaz! Toma aqui! ― e transforma sua cueca num maço de dinheiro, entrega para o amigo, e ambos riem a valer.

– Aproveita para gravar a hora que você der o dinheiro, assim você usa no trabalho de Chantageneses que o professor pediu ―, e pisca o olho, cúmplice.

Por séculos, tudo correu bem em Robewarts, até que surgiu o temível Valdemoro, decidido a acabar com a farra. Um por um, Valdemoro mandou para as trevas magos, alunos e professores, e Robewarts foi aos poucos perdendo seu brilho original. Até Dildore foi afastada do comando, e hoje faz seus truques apenas em festas de aniversário de amigos mais próximos, triste fim.

Valdemoro continua incansável em sua missão de destruir Robewarts e todos os seus Magos. E ele sabe que o pior ainda está por vir.

Chegará o dia do confronto final com Harry P. Ter, e quando esse dia chegar e eles tiverem finalmente que se enfrentar, apenas um sobreviverá.

sábado, 10 de dezembro de 2016

UM CONTO MEDIEVAL ― Por Mentor Neto

Era uma vez o Reino das Bananas, um reino que um dia foi feliz, mas se tornou triste. Seu rei era o Rei de Araque.

Como todo rei, não havia sido escolhido pelo povo. Herdou o trono quando sua mãe, a Rainha Doida, destruiu as finanças do reino e foi exilada.

A Rainha Mãe era doida porque não falava lé com cré, não entendia patavina das finanças, deixava amigos não pagarem tributos, prometia melhorias e não as entregava, e não tinha aliados no Conselho dos Notáveis (que era quem escrevia as leis).

Como nossa história se passa na Idade Média, muitos desses conselheiros eram vilões.
Em troca de algumas moedas de ouro, escreviam leis que beneficiavam quem os pagasse, e o faziam deslavadamente, nas fuças do rei e do povo.

O rei, quando acordava, observava seu reino da janela de seus aposentos com o olhar incrédulo de quem tinha poder muito acima de sua capacidade. Mas não era bobo. Não cometeria o mesmo erro da mãe. Preferia fazer conchavos com gente de má reputação e com o Conselho para se manter no poder, quando muitos achavam que ele deveria tomar medidas que acabassem com a roubalheira geral e se cercar de gente de confiança, enfim, que fizesse o óbvio: botasse ordem no Reino das Bananas. Mas o rei escolhia os mais suspeitos Grão-Duques, gente da pior espécie, que usava o reino apenas para enriquecer seus feudos.

Um deles, veja que absurdo, usou o poder real para pressionar o Marquês das Construções a liberar uma obra. Uma porcaria dum castelinho mequetrefe. O marquês, ofendido, reclamou ao rei, que destituiu não o Grão-Duque cínico, mas o próprio marquês. Só na Idade Média para acontecer uma palhaçada dessas.

O Rei de Araque nem tchum para os resmungos da plebe, e a vida seguia como sempre no Reino das Bananas. Os conselheiros roubando e o rei se cercando de canalhas. Um belo dia, o Conselho dos Notáveis recebeu um conjunto de leis para aprovar. Era uma série de medidas para acabar de vez com a safadeza. Mas era o mesmo que dar a chave do galinheiro para a raposa. Afinal, se era justamente o conselho quem mais aprontava, como esperar que aprovasse leis para arrumar o que estava errado?
Isso pode parecer óbvio para nós, que vivemos no século 21, mas, na Idade Média, ninguém percebia esse absurdo.

As leis, se aprovadas, dariam uma nova esperança para o povo e o Reino das Bananas seria feliz de novo. Finalmente, o Reino das Bananas mudaria. Mas o Conselho não cederia tão facilmente, e numa reunião na calada da noite, fez picadinho das medidas para moralizar o reino. Mudaram tudo, de novo, para se favorecer. E o rei nem aí.

O povo ficou indignado e saiu às ruas esburacadas do reino para pedir a cabeça do Rei de Araque e de seus conselheiros. Havia bonecos com o rei enforcado, faixas com palavras de ordem e musiquinhas motivadoras. Mas não adiantou nada. Afinal, na Idade Média ainda não existia Instagram, que, como a gente sabe, hoje é o que faz a grande diferença.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

VAI APROVEITAR O 13º PARA TROCAR DE CARRO? QUE TAL EXPERIMENTAR UM MODELO COM TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA?

“KNAPP DANEBEN IST AUCH VORBEI” (QUASE GANHAR TAMBÉM É PERDER).

Dentro de alguns dias, quem ainda tem emprego e um bom salário verá seu contracheque recheado com um polpudo abono natalino ― ou 13º salário, se preferir, como foi chamada a gratificação instituída em 1962 pelo então presidente João Goulart, que tornou compulsória uma prática até então concedida por alguns patrões, por mera liberalidade, como forma de agradecer e estimular o desempenho de seus funcionários.

Há quem diga que essa medida não passou de populismo, mas é incontestável que a grana extra é aguardada ansiosamente pelos trabalhadores ― que, em tempos de vacas gordas, torravam-na em compras de Natal e viagens de férias, mas agora, em meio à crise gerada e parida pela anta incompetenta que ocupou a presidência até seis meses atrás, quando não sobra salário no fim do mês, mas mês no fim do salário, usa para quitar dívidas e realizar de projetos de consumo há muito adiados, como a troca do fogão, da geladeira ou, porque não, do velho “poizé” da família.

Lamentavelmente, o preço dos automóveis no Brasil é piada (de humor negro), e a maioria dos modelos fabricados aqui estão defasados pelo menos 30 anos em relação aos do assim chamado “primeiro mundo”. Mas o cenário melhorou bastante depois que o ex-presidente Collor classificou os carros nacionais como “carroças”, abriu as importações e pôs fim à nefasta “reserva de mercado” herdada da ditadura militar. Não fosse assim, talvez ainda estivéssemos pagando rios de dinheiro por fuscas, brasílias, chevettes e corcéis com motores carburados, sem direção servo-assistida, travas e vidros elétricos, freios com ABS e outros aprimoramentos que hoje estão disponíveis até mesmo nos modelos “populares”, ainda que como “opcionais” cobrados a peso de ouro.

Outra evolução digna de nota é a transmissão automática ― sistema desenvolvido no início do século passado e que logo cativou os motoristas norte-americanos (e europeus, ainda que em menor grau), mas só recentemente caiu no gosto dos brasileiros. Embora equipasse boa parte da frota tupiniquim nas décadas de 40/50/60 ― que era composta majoritariamente de automóveis importados dos EUA ― a suposta fragilidade dos componentes, a escassez de mão de obra especializada e o alto custo dos reparos levavam os consumidores tupiniquins a rejeitá-los.

Hoje, a coisa é um pouco diferente. Embora persistam resquícios desse ranço em alguns nichos, o conforto e a confiabilidade das caixas automáticas e automatizadas vêm sendo reconhecidos pelos consumidores, e a possibilidade de trocar as marchas de forma “sequencial”, oferecida por alguns modelos, proporciona desempenho similar ou até superior ao dos câmbios mecânicos tradicionais, cativando até mesmo motoristas que não abrem mão de uma tocada mais esportiva.

Depois que a Volkswagen, a General Motors e a Ford se estabeleceram no Brasil (a FIAT veio um pouco depois, já no final da década de 70) e os retrógrados governos militares impuseram barreiras quase intransponíveis às importações, o câmbio mecânico reinou absoluto até que a FORD lançou a luxuosa versão Landau do Galaxie, equipada com uma caixa automática de 3 velocidades. Nos anos 1980, pipocaram mais alguns modelos (da própria FORD, como o Del Rey, da GM, como as versões Comodoro e Diplomata do Chevrolet Opala e, mais adiante, modelos top de linha do Monza), mas sua penetração no mercado foi inexpressiva, quando comparada com seus equivalentes com câmbio manual. Já a transmissão automatizada (cujas diferenças serão abordadas mais adiante nesta sequência) foi usada inicialmente pela Fiat nos Palio Citymatic do início da década de 90, mas o fiasco retumbante condenou-a ao ostracismo até 2007, quando a GM lançou a Meriva Easytronic, e logo foi seguida pela VW, FIAT e FORD (não necessariamente nessa ordem).

Caixas automatizadas são mais baratas e fáceis de manter do que as automáticas, pois utilizam basicamente os mesmos componentes da transmissão manual. A diferença é que, como os veículos automáticos, os automatizados contam apenas com os pedais do acelerador e do freio, já que “robôsacionam a embreagem e trocam as marchas automaticamente. O preço mais acessível levou as montadoras a oferecer esse “mimo” em seus modelos intermediários, deixando a transmissão automática “de verdade” para os de topo de linha. Todavia, embora tanto num caso como no outro o motorista fica dispensado de usar a perna esquerda, as semelhanças ficam por aí, pois cada sistema tem vantagens e desvantagens que você deve levar em conta ao escolher seu próximo carro.

Para facilitar a compreensão do que será visto a seguir, recomendo a leitura das postagens de  21 e 22 de setembro de 2009, mediante a qual você terá uma boa ideia como funciona o motor de combustão interna do ciclo Otto. Enquanto isso, eu vou preparando o próximo capítulo desta sequência. Abraços a todos e até lá.

A CAMINHO DO IMPASSE

O Brasil caminha para um grave impasse institucional. Os três Poderes fundamentais funcionam mal ou não funcionam, e esse desempenho precário transforma-se em material altamente inflamável. Por um lado, temos um Congresso formado pelo dinheiro sujo e que reuniu a maior concentração de burrice e despudor de que se tem notícia.

O que há de virtude na Câmara e no Senado resiste em um cantinho. A maioria dos parlamentares brasileiros se uniu para votar a anistia a seus próprios crimes, o que só não ocorreu pela reação da opinião pública, particularmente notável nas redes sociais. Em um quadro que antecede o conhecimento da delação da Odebrecht, essa mesma maioria aprovou emendas em cima da perna, mais para retaliar do que para responsabilizar atos ilegais eventualmente cometidos por membros do Judiciário e do Ministério Público.

Do outro lado, como expressão desta calamidade, há o governo Temer, que segue a cartilha de sua antecessora ao propor ajuste que preserva o "andar de cima". Uma metáfora que, no caso Temer, perdeu sua extensão simbólica para se concretizar em uma torre com vista privilegiada para a Baía de Todos os Santos. Foram-se os geddéis, mas quando a corda aperta os sacrifícios propostos pela Casa Grande são encaminhados à Senzala. Sem a legitimidade das urnas e sem base social nas classes populares, o governo Temer é uma caricatura sem graça cercada de investigações por todos os lados.

Na outra ponta, um Judiciário insuscetível às reformas vive em torno de suas próprias demandas e privilégios que afrontam o ideal republicano. O próprio Conselho Nacional de Justiça, que surgiu como instância capaz de barrar abusos e combater desvios, perdeu seu potencial reformador e se tornou um órgão de chancela de interesses corporativos. No STF, há centenas de políticos denunciados e que nunca foram nem serão julgados. O mesmo fenômeno se identifica em outras instâncias como o STJ. A justiça brasileira segue sendo aquela que mantém na prisão quase 40% da massa carcerária sem julgamento e que, até hoje, não foi capaz de julgar em definitivo personagens emblemáticos como Paulo Maluf

Alguém dirá que isso ocorre por conta das leis brasileiras. Não é verdade. A Justiça brasileira sustenta a impunidade pela tradição de não julgar os poderosos, ponto. A Lava-Jato é uma trajetória absolutamente fora da curva, e exatamente por isso que ela é tão importante. Coisa que a esquerda e a direita antigas não podem ver pelas impressionantes mesmas razões.


Com artigo de Marcos Rolin no portal ZH

Era uma vez um rei que adorava coisas estranhas. Sabendo disso, um espertalhão abordou o dono de um elefante e propôs levarem o animal até o palácio e vendê-lo ao rei, dizendo que o bicho cantava.
O rei mandou o elefante falar, e nada. O espertalhão informou que levaria 20 anos para o elefante cantar e, enquanto isso, ele e o sócio deveriam ser hóspedes reais, usufruindo toda a mordomia da corte.
O rei topou, mas advertiu: 
― Daqui a 20 anos, se ele não cantar, vocês serão torturados até a morte.
O dono do animal ficou apavorado. O espertalhão nem aí, com ar triunfante, tranquilizou as coisas:
― Em 20 anos, o rei pode morrer, o elefante pode morrer e até nós podemos morrer.

Confira minhas atualizações diárias sobre política em www.cenario-politico-tupiniquim.link.blog.br/

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

RENAN CONTINUA PRESIDENTE, MAS NÃO PODE SUBSTIUIR O PRESIDENTE


EM EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA:

Não acabou em pizza, mas numa salada russa com digitais do “chef” Michel Temer, cujo governo já vai mal das pernas, e a última coisa de que ele precisa é espichar ainda mais o perrengue entre o Legislativo e o Judiciário, que atingiu temperaturas altíssimas depois que o ministro Marco Aurélio Mello acolheu o pedido do partido Rede Sustentabilidade e apeou liminarmente Renan Calheiros da presidência do Senado.

Numa absurda inversão de valores ― embora não tão absurda para o Brasil, que é o rei dos contrassensos e das iniquidades ―, a liminar paralisou os trabalhos na Câmara Alta do Congresso Nacional. Era como se nada ali funcionasse sem a presença do senador alagoano ― réu no STF por crime de peculato e investigado em pelo menos mais 11 processos, oito dos quais no âmbito da Lava-Jato ―, que, para piorar, apoiado pela mesa diretora da Casa, resolveu simplesmente não acatar a decisão do Judiciário, como se sua deposição fosse uma opção, e não uma determinação da um ministro da nossa mais alta Corte de Justiça.

Vale lembrar que Temer tem urgência em aprovar a PEC dos gastos e a reforma da Previdência, já que o recesso parlamentar começa no próximo dia 20, e a substituição de Renan pelo petista Jorge Viana ser-lhe-ia, no mínimo, contraproducente. Assim, tramou-se nos bastidores um acordão (não confundir com “acórdão”) visando a uma solução meia-boca: tirar Renan da linha sucessória da presidência da República sem comprometer seu cargo de presidente do Senado e seu mandato de Senador. Como se substituir o presidente da República fosse uma prerrogativa pessoal de Renan, e não do cargo de presidente de qualquer uma das duas Câmaras do Congresso Nacional.

Já dava para sentir o cheiro da batata cozinhando no plenário do STF quando, contrariando a praxe, quem se pronunciou depois do relator foi o ministro Celso de Mello ― que, em situações normais, seria o penúltimo a votar (antecedendo a ministra Carmem Lucia, atual presidente da Corte). E na medida em que os votos de ambos os "Mello" divergiram em parte, os demais ministros sentiram-se confortáveis para acompanhar o decano e parir mais uma jabuticaba a pretexto da harmonia entre os poderes e sustentabilidade do Executivo.

O resultado pegou mal, o Supremo saiu desmoralizado e o povo, que torcia pela deposição de Renan, mais uma vez decepcionado. A boa notícia é que agora já podemos mudar de assunto, em que pese a possibilidade de novos desdobramentos, até porque o STF deverá decidir de uma vez se réus em ações penais podem ou não ocupar cargos que os coloquem na linha sucessória presidencial e, em se confirmando as previsões, Renan poderá perder também o mandato de senador (e a presidência da Casa, naturalmente). Além disso, o ministro Marco Aurélio ficou de encaminhar cópia do seu voto e documentos pertinentes à PGR, para que sejam investigados Renan e os demais senadores e membros da mesa diretora que se recusaram a receber a notificação judicial da liminar que apeava o alagoano da presidência da Casa. Janot já disse várias vezes que “não é admissível” um réu na presidência do Senado, e o ministro, que manter Renan na função seria um “deboche institucional”.

Quanto poder, presidente. Faço Justiça ao senador Renan Calheiros. Faço Justiça ao dizer que ele não me chamou de juizeco. Tempos estranhos, presidente, os vivenciados nessa sofrida república. Se diz que, sem ele, e a essa altura está sendo tomado como um salvador da Pátria amada, não teremos a aprovação de medidas emergenciais visando combater um mal maior, que é a crise econômica e financeira”, disse Marco Aurélio, num trecho do seu voto.

Se tivesse pedido a prisão de Renan quando este se recusou a cumprir a ordem judicial, Marco Aurélio teria evitado o conchavo entre os poderes em busca de uma “saída política”. Mas essa história já está ficando tão cansativa quanto a exploração, pela mídia, da fatalidade que dizimou o Chapecoense ― ou do crime, melhor dizendo, pois não há outra maneira de definir a decisão do piloto de percorrer 1605 milhas sem reabastecer uma aeronave com autonomia máxima de 1.600 milhas, e ainda declarar “falha técnica”, e não falta de combustível, quando pediu autorização para o pouso de emergência.

Falando em crimes e criminosos, o fotógrafo Ricardo Stuckert, que registra cada momento da vida de Lula desde 2003, recebeu do petralha sua mais recente missão: ficar em frente ao apartamento do petista às 5h da manhã, sempre que o chefe está em São Bernardo, para não perder as cenas de uma possível prisão.

Até mais ler.

Confira minhas atualizações diárias sobre política em www.cenario-politico-tupiniquim.link.blog.br/

DICAS DA HORA

UM CHEFE QUE É CAPAZ DEVE FINGIR SER INCAPAZ; SE ESTIVER PRONTO, DEVE FINGIR-SE DESPREPARADO; SE ESTIVER PERTO DO INIMIGO, DEVE PARECER ESTAR LONGE.

Quer abrir um aplicativo sem tirar as mãos do teclado? Então, na caixa de pesquisas do Windows 10 (se ela não estiver visível, clique na pequena lente que aparece na extremidade esquerda da Barra de Tarefas), digite as primeiras letras do nome do programa (por exemplo, “chr” para o navegador Chrome) e tecle Enter.

Caso existam aplicativos fixos na Barra de Tarefas, use o atalho Windows+1 para abrir o primeiro, Windows+2 para o segundo, e assim por diante.

Se algum aplicativo se tornar instável inesperadamente, tente repará-lo ou reinstalá-lo. Se o próprio Windows se tornar instável e a Restauração do Sistema não funcionar ou não resolver o problema, experimente fazer logon com uma conta de usuário diferente (para criar uma nova conta no Windows 10, abra o Menu Iniciar, clique em Configurações > Contas > Família e outras pessoas > Adicionar outra pessoa a este PC. Na tela seguinte, clique em Não tenho as informações de entrada dessa pessoa. Na próxima tela, clique em Adicionar um usuário sem uma conta da Microsoft, preencha os campos, clique em Avançar, e pronto). Se isso recolocar o bonde nos trilhos, exclua a conta problemática e passe a usar a nova.

Observação: Conforme eu disse em outras postagens, criar uma segunda conta de usuário no computador, configurá-la com poderes limitados e usá-la no dia a dia é fundamental, pois requer uma senha de administrador para liberar qualquer ação mais invasiva (como a instalação de um aplicativo, por exemplo). Isso não só previne a desconfiguração acidental do sistema, mas também dispensa a trabalhosa reinstalação do Windows no caso de algum malware mais obstinado burlar a proteção do seu antivírus e infectar o sistema. Nesse caso, se um serviço online ― como o ESET Online Scanner ou o HouseCall , por exemplo ― não remover o invasor, você pode se logar com sua conta de administrador, excluir o perfil infectado, criar uma nova conta limitada e seguir adiante como se nada tivesse acontecido).


DORMIA A NOSSA PÁTRIA MÃE TÃO DISTRAÍDA, SEM PERCEBER QUE ERA SUBTRAÍDA EM TENEBROSAS TRANSAÇÕES

As camisetas amarelas voltaram às ruas no último domingo. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e mais duas centenas de municípios, houve manifestações de apoio à Operação Lava-Jato e repúdio ao pacote anticorrupção da forma como foi aprovado pela Câmara, na calada da madrugada da última quinta-feira.

Como no samba Vai Passar ― uma das letras mais inspiradas de Chico Buarque, da qual eu destaco o trecho “Dormia/A nossa pátria mãe tão distraída/Sem perceber que era subtraída/Em tenebrosas transações” ―, os parlamentares, na calada da madrugada do último dia 1º, desmantelaram o espírito higienizador do relatório que o deputado Onyx Lorenzoni havia elaborado com base nas medidas propostas pelo MPF e respaldadas por 2,5 milhões de assinaturas de populares.

Visando favorecer a si próprios e a outros envolvidos na Lava-Jato, suas insolências incluíram no texto emendas como a do deputado pedetista maranhense Weverton Rocha (vê lá se isso é nome que se apresente), que sujeita juízes e procuradores a processos por crime de responsabilidade caso atuem de forma “político-partidária” ou apresentem ações contra agentes públicos “de maneira temerária”.

O que seria, afinal, essa tal maneira temerária? Para os juízes e procuradores, a falta de um consenso a esse respeito permite interpretações ambíguas sejam usadas como ameaça contra aqueles que ousarem investigar “autoridades”. Para a ministra Carmem Lucia, presidente do STF, a democracia depende de poderes fortes e independentes, e “pode-se tentar calar o juiz, mas nunca se conseguiu nem se conseguirá calar a Justiça”.

Mas não é só. Além de agirem à sorrelfa, suas insolências o fizeram na madrugada em que o país ― e quiçá o resto do mundo ― estava estarrecido diante do trágico acidente que ceifou 71 vidas, aí incluídas as dos integrantes da Associação Chapecoense de Futebol, que voava em busca de sua primeira glória internacional. Isso sem mencionar que, duas semanas atrás, os mesmos deputados tentaram emplacar uma inconcebível anistia ao caixa 2 eleitoral, que só não seguiu adiante por conta, mais uma vez, da pressão popular, que levou Michel Temer a afirmar que vetaria essa emenda se ela fosse aprovada pela Câmara e pelo Senado.

Observação: Seis juristas ouvidos por VEJA afirmam que a emenda para criminalizar o abuso de autoridade é inconstitucional. Por tratar de temas do Judiciário, ela só poderia ser oferecida pelo STF, nunca por um parlamentar ― o que configura “vício de iniciativa”. 

O fato é que todo esse imbróglio deixa Temer (mais uma vez) entre a cruz e a caldeirinha e o afasta do ambicioso projeto de ser lembrado como o presidente que recolocou o país nos trilhos do crescimento. Não bastasse sua equipe de notáveis ter se revelado uma notável fonte de problemas ― 6 ministros foram trocados nos primeiros seis meses de governo, e mais uma dúzia deles ou é investigada judicialmente ou é citada na Lava-Jato ―, o perrengue mais recente (entre o amigo Geddel Marcelo Calero) não só forçou o desligamento de ambos os envolvidos como deixou periclitante a situação do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha.

Embora tenha cometido mais acertos do que erros na área econômica, o presidente vem perdendo o pouco de popularidade que conquistou, especialmente por se render a pressões do Congresso. Depois dos lamentáveis episódios protagonizado pela Câmara Federal e por Renan, na semana passada, Temer foi advertido de que deveria se preparar para um processo de impeachment caso vetasse o “passa moleque” dos parlamentares na Lava-Jato. Inicialmente levada na brincadeira, a bravata correu veloz no plenário. No grupo de WhatsApp de partidos da base aliada, comentava-se que vetar as medidas contra “abusos de autoridade” é comprar o bilhete de volta para casa.

Como se tudo isso não bastasse, o Executivo depende do Legislativo para aprovar a PEC dos gastos e a reforma da Previdência, o que torna ainda mais desconfortável a posição de Temer nessa absurda “guerra dos poderes”.

Confira minhas atualizações diárias sobre política em www.cenario-politico-tupiniquim.link.blog.br/